por Misael Batista do Nascimento
Cremos que qualquer cristão pode entender o conteúdo básico das
Escrituras. Existem alguns princípios gerais que precisam ser conhecidos e
utilizados na interpretação.
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Trazendo para hoje uma palavra de ontem |
Um dos grandes desafios da interpretação é cultural. A Bíblia
foi escrita para pessoas de outro tempo. [...] Quando, por exemplo, o
apóstolo Paulo sentou-se para escrever a sua carta aos efésios, ele não
estava pensando nos cristãos brasileiros. Sua atenção estava voltada para
pessoas do século I, que viviam dentro da cultura greco-romana-judaica. O mesmo podemos dizer do autor do
Apocalipse. Quando João escreveu sua obra, utilizou uma linguagem simbólica
que era comum principalmente aos cristãos judeus de seu tempo. Em sua época,
eram comuns os escritos apocalípticos, que buscavam transmitir mensagens de
reforço na fé em linguagem cheia de imagens e significados ocultos. Hoje,
quando lemos a Epístola aos Efésios ou o Apocalipse, ficamos às vezes
desnorteados com algumas expressões e, pior ainda, podemos compreendê-las
mal. Daí podemos inferir que a primeira tarefa do intérprete bíblico é
entender o que as Escrituras significaram para os seus primeiros
destinatários. A partir desse ponto, é que podemos estabelecer qual a
aplicação da mesma para hoje. |
Nove princípios muito úteis
É importante que conheçamos nove regras que devem nortear nosso
trabalho de interpretação:
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Oração |
Todo o trabalho de interpretação deve começar com a oração. É
necessário que nos cubramos com a proteção de Deus e convidemos o Espírito
Santo a ser o nosso Mestre. O Espírito Santo tem uma tarefa de ensinar-nos
acerca de Cristo (Jo 16:13-14). |
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Descrição ou Prescrição? |
É preciso distinguir entre texto descritivo e texto prescritivo.
Descritivo é o texto que descreve algo, narra um acontecimento. O fato de
algo ser contado na Bíblia não significa que o mesmo é regra para hoje. Os
relatos históricos, por exemplo, transmitem-nos preciosas lições espirituais.
No entanto, não devemos tirar deles doutrinas absolutas para nós hoje. Só
podemos tirar doutrina de história se houver concordância dos textos bíblicos
doutrinários, principalmente nas epístolas do Novo Testamento. Prescritivo é
o texto que traz regras, ensinamentos e mandamentos para nós hoje. Vemos nas
Escrituras passagens destinadas claramente à instrução e doutrinamento. |
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Ir do simples ao complexo |
Pergunte sempre qual o significado mais simples, mais claro,
mais singelo. A Bíblia é um livro que pode ser entendido por todo cristão, do
erudito até o semianalfabeto. A verdade mais clara é sempre preferível aos
posicionamentos nebulosos e "profundos" (às vezes sem fundo
mesmo!). Isso não significa que todo o conteúdo bíblico seja fácil de
entender. Em algumas partes dele, precisaremos de auxílio adicional, e aqui
entra a contribuição das boas introduções, manuais e comentários. E não
apenas isso. Algumas passagens, ficarão simplesmente sem interpretação, por
completa falta de informação. |
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Cuidado com os textos "misteriosos" |
Não dê atenção a textos obscuros. Pode parecer estranho, mas
esse é um princípio que eu considero dos mais importantes. Alguns indivíduos
tem o prazer em escarafunchar curiosidades inócuas tais como quem era o jovem
nu do final do Evangelho de Marcos (Mc 14:51-52), os detalhes do batismo
pelos mortos citados por Paulo em 1Co 15:29, acerca da pregação de Cristo aos
espíritos em prisão, citada em 1Pe 3:18-20. Assim, perde-se tempo analisando
detalhes irrelevantes. Essas questões podem parecer um "prato
cheio" para os eruditos e técnicos textuais do Novo Testamento, mas, na maioria
das vezes, dizem pouco ao cristão comum. Partamos do princípio que todas as principais doutrinas e
ensinamentos para a nossa vida prática estão expostos de modo claro na
Bíblia. Os textos complicados, porquanto bíblicos, e por isso, valiosos, não
são fundamentais para a nossa fé. |
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Considere a revelação progressiva |
Algumas verdades foram reveladas em semente no Velho Testamento,
e só no Novo Testamento encontramos sua plena expressão, como por exemplo o
ministério de Cristo, a Igreja, a nova dimensão da guarda do sábado, a
situação pós-morte, etc. |
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Compare Escritura com Escritura |
O melhor comentário sobre a Bíblia é a própria Bíblia. Compare
os princípios encontrados com o restante das Escrituras. Se houver
reafirmação da verdade, principalmente no Novo Testamento, devemos ensiná-la
com convicção. Essa regra é chamada pelos intérpretes de "analogia das
Escrituras", e, bem utilizada, evita uma série de erros grosseiros de
interpretação. O intérprete realiza o seu trabalho convicto de que a Escritura
não se contradiz. Algumas verdades são difíceis de conciliar, mas isso não
significa que sejam excludentes. Um exemplo disso é a questão da responsabilidade humana e da
soberania divina. O fato de não entendermos alguma coisa não significa que ela
esteja errada. Algumas respostas a tais questões só nos serão fornecidas na
eternidade. |
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Cuidado com as "novas revelações" |
Quando falamos de interpretação, o Espírito Santo não concede
nova revelação, e sim iluminação. Não há nova verdade a ser acrescentada
sobre o texto bíblico. Há nova iluminação, ou seja, são-nos mostrados novos
aspectos da verdade que são relevantes para a nossa situação atual. A verdade
é apenas uma. As aplicações dessa verdade é que são diversas. Somos
incumbidos de entender a verdade e, sob a unção do Espírito de Cristo
aplicá-la. Não fomos chamados para descobrir novas coisas, mas para ensinar
as velhas e maravilhosas verdades de forma nova, pois elas são sempre
necessárias em nossa geração. |
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Observe o Contexto |
Quando desconsideramos o contexto, estamos sujeitos a errar a
nossa interpretação. Um modo eficaz de olharmos os textos contextualmente é os
observarmos em blocos redacionais. Ex: ·
Objetivo do livro: Gerar fé nos
leitores, de que Jesus Cristo é o Filho de Deus (Jo 20:31). ·
Seção é uma divisão maior do livro. No
caso do Ev. de João, podemos afirmar que existem duas grandes seções: Sinais
e Glória. ·
Capítulo é uma unidade menor dentro de
uma seção. É interessante dividirmos os parágrafos dentro dos capítulos para
entendermos melhor o texto. ·
Perícope ou texto analisado é a unidade
menor dentro de um capítulo. Pode abranger um ou mais parágrafos. O texto
estudado pode abranger apenas parte de um parágrafo, ou mesmo um só
versículo. É importante estabelecer a relação deste texto com o capítulo, com
a seção e com o restante do livro. Essa análise ampla permite uma
interpretação harmoniosa e equilibrada. A interpretação deve levar em conta toda essa estrutura textual.
Chamamos de contexto imediato tudo aquilo que está próximo ao texto estudado
(parágrafo e capítulo). Chamamos de contexto remoto tudo aquilo que está distante, mas
ao mesmo tempo abrange o texto estudado (seção— divisões maiores da obra, e o
livro como um todo). Devemos sempre perguntar ao texto: qual o contexto próximo? O
parágrafo está tratando de que tema? E o capítulo? E a seção? Aqui
estabeleceremos uma relação entre os elementos textuais, e estaremos mais
aptos a discernir o significado da passagem. Todo texto deve ser interpretado
dentro do seu contexto. Como diz um ditado da IB, "texto tirado de
contexto é pretexto". Muitos usam textos deslocados para provar as suas
doutrinas preferidas. Não caiamos nesse ardil! |
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Interpretação alegórica ou literal?
Ao interpretarmos um texto, fujamos da interpretação alegórica. O
texto normalmente significa aquilo que está escrito mesmo. Em ocasiões iremos
nos defrontar com figuras de linguagem. Cristo diz, por exemplo, que ele é
"a porta" (Jo 10:7). Nesse caso, o bom senso nos diz que cabe aqui
uma interpretação simbólica. Em outras situações, porém, devemos cuidar para
não alegorizar aquilo que é literal.
Sei que, inicialmente, a observação dos nove princípios acima
poderá parecer um pouco complicada. Alguns, vendo a grandeza da tarefa, poderão
até pensar em desistir. Quero incentivá-los a perseverarem. Deus recompensa
nosso esforço de buscarmos entender melhor a sua Palavra.
No caso da IB, jamais poderemos dispensar a ajuda de nosso treinador: o Espírito Santo. Ele sempre estará conosco neste caminho, e nosso destino será a terra da boa doutrina, de onde poderemos encontrar ao Senhor Jesus Cristo, e desfrutar por ele do gostoso fruto da árvore da vida. A Ele toda honra e toda glória.
Fonte: http://www.monergismo.com/textos/hermeneuticas/hermeneutica_misael.htm
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