Por: Aldair Ramos Rios
A Doutrina da Revelação encontra-se expressa na Confissão Gaulesa, da seguinte maneira:
“Foi Deus quem se fez conhecer aos homens. Primeiramente, por suas obras, tanto pela Criação como pela conservação e maneira como Ele a conduz. Também, e mais claramente ainda, pela Palavra, a qual foi primeiramente revelada verbalmente e em seguida escrita nos livros que nós chamamos: Santa Escritura.” [1]
Observa-se que o dispositivo acima apresenta -dois modos- pelos quais Deus se revela. O primeiro modo é chamado de Revelação Geral e o segundo de revelação Especial.
Ao tratar sobre o primeiro modo nas Institutas, Calvino defende que as virtudes de Deus podem ser vistas na criação em geral, e também no próprio homem. Essa revelação nos aponta, dentre outras coisas, para a Bondade de Deus. Cada obra em particular e em conjunto é como um grande quadro pelo qual vemos as operações do poder de Deus, de tal modo, que ficamos sem desculpas, ainda que sejamos incapazes de observá-la de forma nítida em razão do pecado [2]. Sobre isso a Confissão de Fé de Westminster vai dizer que:
Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal maneira manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis (Rm 2:14,15; Rm 1:19,20; Rm 1:32; Rm 2:1; Sl 19:1-3), contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade, que são necessários para a salvação (1Co 1:21;1Co 2:13,14). [3]
O conhecimento de Deus necessário a salvação do qual precisamos é encontrado somente na Revelação Especial, "por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade (Hb 1:1)”[4].
Quando a Confissão Gaulesa aduz que a Revelação Especial dada primeiramente de forma verbal foi posteriormente escrita, não deixa espaço para a ideia de qualquer conteúdo revelacional, necessário a salvação, deixado fora das Sagradas Escrituras. Essa conclusão também é defendida por outras Confissões. A Confissão de Westminster afirma que:
[...] para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido em fazer escrever todo esta (Pv 22: 19-21; Lc 1: 3,4; Rm 15:4; Mt 4: 4,7,10: Is 8: 19,20); o que torna indispensável a Escritura Sagrada (2Tm 3:15; 2Pe 1:19), tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo (Hb 1:1,2)[5].
A Confissão de Batista de Londres apresenta a mesma compreensão quando assegura que "a todas as coisas necessárias” para a salvação do homem, as quais devem ser cridas e vividas, "é expressamente declarado ou necessariamente contido nas Sagradas Escrituras”[6].
Ao comentar Efésios 2.20, Franklin Ferreira aduz que o Novo Testamento colocou limites na revelação de Deus, sendo o acesso a ela pelas Escrituras, que é “a fundação sobre a qual a Igreja é Edificada” [7]. Não havendo, desse modo qualquer conteúdo revelacional necessários a salvação fora da Bíblia.
Conforme se vê da leitura do Novo Testamento, as promessas da Antiga Aliança encontraram seu cumprimento na vida e ensino de Cristo.
O próprio Cristo havia dito aos seus discípulos que ele era o cumprimento do que estava escrito “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.27, 44) e que sendo testemunhas de que Cristo havia cumprido as promessas da Antiga Aliança, eles deveriam anunciar essa boa notícia a todas as nações (Lc 24.47). O conteúdo daquilo que a Igreja deveria pregar estava intimamente ligada as expectativas acerca do Messias predito pelos profetas do Antigo Testamento.
Paulo vai dizer que o evangelho que havia anunciado aos coríntios foi entregue tal como ele havia recebido: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15.1-4).
Logo, o conteúdo da pregação apostólica não era uma novidade, mas o anúncio de que as profecias do Antigo Testamento acerca do Messias haviam sido cumpridas em Jesus Cristo.
Graeme Goldsworthy, explica que o evento evangélico não era uma coisa nova:
“[...], mas [...] a conclusão e o cumprimento de todos os atos salvadores e promessas de Deus no Antigo Testamento. Repetidas vezes, Jesus falou sobre o seu papel como cumprimento da Escritura [Mt 3.15; 5.17; 13.14; 26.54,56; Mc 1.15; 14.49; Lc 4.21; 21.22, 24; 22.37; 24.44-47; Jo 13.18; 15.25; 17.12 ...] A mesma convicção é claramente sustentada pelos escritores dos evangelhos e pelos apóstolos [Mt1.22; 2.15, 17, 23; 4.14; 8.17; 12.17; 21.4; 27.9; Jo 12.38; 18.32; 19.24, 28, 36; At 1.16; 3.18; 13.27, 33].
Portanto, havendo dito que as Escrituras testificavam dele e que Moisés escrevera sobre ele, Jesus se referiu ao seu ensino anterior dizendo; “Importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” [Jo 5.39, 46-47; Lc 24.44]”.[8]
Dessa recorrência de Jesus e dos escritores neotestamentarios as Escrituras do Antigo Testamento, o protestante tem uma base para o “Sola Scriptura”, visto que, não se recorre em primeiro lugar a tradição oral ou qualquer outra autoridade, mas a Escritura, como autoridade suprema, final e infalível (Jo 10.35).
Ao dar primazia a Bíblia, assim como faziam os escritores bíblicos, o protestantismo dá primazia a Revelação, visto que o conteúdo da Bíblia é a própria Revelação. Desse modo, qualquer tentativa de sujeitar a autoridade da Bíblia a Igreja é tido como uma tentativa de sujeitar a Revelação de Deus à Igreja, fazendo dela uma “serva da Igreja”, o que seria inaceitável.
O próprio Cristo enviou os apóstolos a todo o mundo com essa mensagem e disse que quem os ouvisse estaria ouvindo-o (Lc 10.16). Através desses homens, “Deus quis deixar registrado os mais necessários e importantes elementos de sua revelação. Portanto, Deus é o autor da Escritura, ou, Deus é o autor da revelação divina que foi colocada dentro das Sagradas Escrituras”[9].
Logo, a autoridade da Escritura não depende do testemunho da Igreja, mas do seu autor que é Deus, que pelo seu Santo Espirito opera internamente, persuadindo-nos de maneira certeira quanto a infalibilidade e divina autoridade das Sagradas Escrituras [10].
[1] Confissão Gaulesa [francesa, ou de rochelle] (1559). Disponível em: <https://www.ipportovelho.com.br/artigo/confissao-gaulesa-francesa-ou-de-rochelle-1559>. Acesso em: 31 de maio de 2020
[2] CALVINO, João. As institutas da religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa. São Paulo. Cultura Cristã, 2006, p.63-69
[3] Confissão de Fé de Westminster. Disponível em: <http://www.ipportovelho.com.br/uploads/documentos/1647-a-confissao-de-fe.pdf> Acesso em: 04 de junho de 2020.
[4] Ibidem
[5]Ibidem
[6] A Confissão de Fé Batista de 1689 & Um Catecismo Puritano Compilado por C.H.Spurgeon. Disponível em: <https://oestandartedecristo.com/2019/03/22/confissao-de-fe-batista-de-londres-de-1677-1689/#_Toc487379700>. Acesso em: 31 de maio de 2020.
[7] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p.115.
[8] GOLDSWORTTHY, Graeme. Pregando toda a bíblia como escritura cristã: a aplicação da teologia bíblica à pregação expositiva. 1 Ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013, p.97.
[9] GERHARD, Johann apud PREUS, Robert. A Palavra de Deus na Teologia da Ortodoxia Luterana. Revista teológica da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Casa Publicadora Concórdia, Ano XXXIII, 1972, p, 5, Porto Alegre. Seminário Concórdia. Disponível em:<http://www.seminarioconcordia.com.br/seminario_novo/index.php/component/sppagebuilder/71-biblioteca-revista-igreja-luterana> Acesso em: 04 de junho de 2020.
[10] A Confissão de Fé Batista de 1689 & Um Catecismo Puritano Compilado por C.H.Spurgeon. Disponível em: <https://oestandartedecristo.com/2019/03/22/confissao-de-fe-batista-de-londres-de-1677-1689/#_Toc487379700>. Acesso em: 31 de maio de 2020.
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