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Suficiência Material e Formal das Sagradas Escrituras

Por Aldair Ramos Rios

Embora o protestantismo esteja pronto a admitir que nem todas as coisas foram escritas na Bíblia, tal como afirmado no Evangelho de João (Jo 21.25). Ainda assim, defende que tudo o que cristão necessita saber, é expressamente declarado ou necessariamente contido nas Sagradas Escrituras [1]. Isso é a Suficiência Material. 
Para o protestante a Escritura apresenta o quadro completo de informações essenciais a salvação. É o que assegura a Segunda Confissão Helvética: 

[...] nesta Escritura Sagrada a Igreja Universal de Cristo tem a mais completa exposição de tudo o que se refere à fé salvadora e à norma de uma vida aceitável a Deus; e a esse respeito é expressamente ordenado por Deus que a ela nada se acrescente ou dela nada se retire. 
A Escritura ensina plenamente toda a piedade. (Grifo nosso) [2] 
  
Ao dizer que na Bíblia o crente encontra a mais completa exposição de tudo o que se refere à fé salvadora e à norma de uma vida aceitável a Deus, é excluída a necessidade de qualquer complemento. Vanhoozer apresenta esse entendimento, nos seguintes termos: 

A suficiência material da Escritura exclui qualquer possibilidade de que ela necessite de um suplemento externo para alcançar o propósito para o qual foi enviada [...] O que Deus escreveu é adequado para seu propósito de comunicação: “A Escritura é materialmente suficiente para o testemunho do conteúdo proposicional (a apresentação de Jesus Cristo como meio de salvação” e para a transmissão da força ilocucionária (o chamado ou convite a ter fé nele). [3] 

Contudo, a Escritura não tem apenas suficiência material, ela tem também suficiência formal. Isso significa dizer que a Bíblia é auto interpretativa, ou seja, “a Escritura interpreta a Escritura”. As partes interpretam o todo e o todo interpreta as partes. Dizer que a Bíblia tem também suficiência formal é assegurar que ela nos “proporciona a metanarrativa mais importante e a estrutura hermenêutica para a compreensão de suas partes”[4] 
A metanarrativa, de acordo com Gordon Fee e Douglas Stuart, é “o quadro geral, a história principal, da qual todas as outras histórias são uma parte, cooperando para dar forma ao todo”[5]. Essa grande história, segundo Fee e Stuart, não se trata de qualquer narrativa, mas da história do próprio Deus, o relato de sua busca por nós, que é contada em quatro capítulos; Criação, Queda, redenção e Consumação. Os diversos livros da Bíblia - cada um deles - são uma parte do todo, integra o todo para formar a grande narrativa [6] 
Ao dizer que a Bíblia interpreta a si mesma, o protestante quer dizer que aquele que a inspirou – o Espirito Santo - também é o único intérprete infalível dela. O que é explicado de forma clara por Nehemiah Coxe: 

[…] o melhor intérprete do Antigo Testamento é o Espírito Santo falando conosco através do Novo Testamento”.[...]. Quando a Bíblia comenta ou cita a si mesma (i.e., citação direta, alusão, reverberação ou cumprimento no AT ou NT), isso é a interpretação de Deus e, portanto, o entendimento divino de como os textos devem ser entendidos pelos homens. Textos posteriores iluminam a interpretação de textos anteriores. Isso geralmente significa que textos posteriores deram luz interpretativa em textos anteriores. Isso ocorre não só quando o Novo Testamento usa o Antigo Testamento, mas ocorre no próprio Antigo Testamento. Ou, podemos colocar as coisas da seguinte maneira: a revelação subsequente muitas vezes torna explícito o que está implícito na revelação antecedente.[7] 

Desse princípio decorrem outros três, que segundo Richard Barcelos é: 1) o princípio da “Analogia da Escritura”, segundo qual, as passagens mais obscuras devem ser interpretadas à luz de passagens mais claras acerca do mesmo assunto; 2) o princípio da “Analogia da Fé” que é o entendimento de que as partes textuais da Bíblia devem ser entendida à luz do todo textual-teológico; 3) o princípio do “Escopo das Sagradas Escrituras” que se refere ao alvo da revelação, aquilo para o qual toda a Escritura aponta, o qual “deve condicionar nossa interpretação de toda e qualquer parte da Escritura”. Esse Escopo é “a glória de Deus na obra redentora do Filho de Deus encarnado”[8]. 
De acordo com Graeme Goldsworthy “a interpretação apropriada de qualquer parte da Bíblia exige que a relacionemos com a pessoa e a obra de Jesus”, visto que todas as Escrituras são a respeito dele. O Novo Testamento dá ênfase a certas áreas cruciais da história da salvação no Antigo Testamento e as alianças com Davi e Abraão - são chaves para essa estrutura- que termina no evento evangélico, no qual Jesus é proclamado como aquele que cumpre todos os papeis salvíficos do Antigo Testamento [9] 
Os reformadores enfatizavam que Cristo é o centro e a chave das Escrituras. A afirmação de que a “Escritura interpreta a si mesma” era sempre feita à luz do princípio cristológico. Se Jesus é o tema das Sagradas Escrituras, a única chave para interpretação Bíblica é o Evangelho [10]. 

[1] A Confissão de Fé Batista de 1689 & Um Catecismo Puritano Compilado por C.H.Spurgeon. Disponível em: <https://oestandartedecristo.com/2019/03/22/confissao-de-fe-batista-de-londres-de-1677-1689/#_Toc487379700>. Acesso em: 31 de maio de 2020. 
[2] Segunda Confissão de Fé Helvética (1562-1566). Disponível em: <https://www.ipportovelho.com.br/artigo/segunda-confissao-de-fe-helvetica-1562-1566>. Acesso em: 18 de maio de 2020. 
[3] VANHOOZER, Kevin J. Autoridade bíblica pós-reforma: resgatando os solas segundo a essência do cristianismo protestante puro e simples. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.153-154. 
[4] Ibidem, p.155. 
[5] FEE, Gordon D; STUART, Douglas. Como ler a Bíblia livro por livro: um guia de estudo panorâmico da Bíblia. São Paulo; Vida Nova, 2013, p.13. 
[6] Ibidem, p.18,24. 
[7] COXE, Nehemiah apud BARCELLOS, Richard. Quatro Princípios da Hermenêutica Clássica. O Estandarte de Cristo. Disponível em:<https://oestandartedecristo.com/2019/03/22/quatro-principios-da-hermeneutica-classica-richard-barcellos/#_ftn4>. Acesso em: 02 de junho de 2020. 
[8] BARCELLOS, Richard. Quatro Princípios da Hermenêutica Clássica. O Estandarte de Cristo. Disponível em:<https://oestandartedecristo.com/2019/03/22/quatro-principios-da-hermeneutica-classica-richard-barcellos/#_ftn4>. Acesso em: 02 de junho de 2020 
[9] GOLDSWORTHY, Graeme.Pregando toda a biblia como escritura cristã: a aplicação da teologia bíblica a pregação expositiva. 1 ed. São José dos Campos/SP: Editora Fiel, 2013, p.145, 152,153. 

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