O Cardeal Orani João Tempesta,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro escreveu um
artigo publicado no site da CNBB no qual assegurava que: “O cânon bíblico (...) foi definido pela Igreja (...)”. Por essa razão não seria correto e nem sábio julgar a Igreja pela Bíblia, visto que “a Igreja foi quem, por graça divina, organizou a Escritura, não o contrário” [1].
Afirmação como essa, faz parecer que antes da Igreja sequer havia o Antigo Testamento, o que não é verdade.
Mesmo antes do Concílio de Judaico de Jamnia, a divisão tripartida (Torah/Lei; Neviim/Profetas e Ketuvim/Escritos) do Antigo Testamento já era conhecida, segundo Marcelo Berti, o próprio Jesus:
“[...] descreve o Pentateuco como palavra de Deus (Mc 7:10//Mt 15:4; cf. Ex 20:12; 21:17), usa a expressão “foi cumprido” em referência aos profetas (Mt 13:14-15; cf. Is 6:9-10) e chama os escritos de escritura (Mc 12:10-11//Mt 21:42//Lc 20:17; cf. Sl
118:22-23). Jesus também faz alusão a abrangência do cânon do AT ao
sugerir que Abel teria sido o primeiro mártir e Zacarias o último (Mt 23:35/Lc 11:51),[15] e se refere como escritura ao livro de Moisés (Mc 12:26//Mt 22:32//Lc 20:37; cf. Ex 3:5), aos Profetas (Mc 7:6-7//Mt 15:8-9; cf. Isa 29:13; Mc 11:17//Mt 21:13//Lc 19:46; cf. Isa 56:7; Jer 7:11) e ao livro de Salmos (Mc 12:36//Mt 22:44//Lc 20:42-43; cf. Sal 110:1). Em outras palavras, embora o consenso judaico tenha sido finalizado em Jamnia, essa consciência de livros autoritativos já existia muito antes dela”.[2]
Daí
conclui-se, ainda que considerando o não fechamento do cânon do Novo
Testamento de imediato, a fé da Igreja nascente estava fundamentada na
Escrituras do Antigo Testamento. A própria recorrência que os escritores
do Novo Testamento faziam do Velho Testamento nos aponta para o grau de
autoridade que a Escritura gozava naqueles dias.
Expressões como “para que se cumprisse o que fora dito” (Ex: Mt 1.22, 2.15,17,23; 4.14, 8.17; 12.17; 13.35; 21.4; 27.9; Jo 12.38; 18.9; At 3.18) ou “para que se cumpram as Escrituras” (Mt 26.54, 56; Mc 13.4; 14.49; 15.28; Lc 4.21; 21.22; 22.37; 24.44; Jo 13.18; 15.25; 17.12; 19.24, 28, 36; At 1.16; 1 Co 15.54; Tg 2.23) tão recorrente nos livros neotestamentarios, mostra-nos que a fé da Igreja era nutrida com a Escritura do Antigo Testamento. Anthony Hoekema comenta que:
“A
narrativa da Queda encontrada nos primeiros versículos de Gênesis 3, é
imediatamente seguida pela promessa de um redentor futuro no versículo 15 [...]
A história da salvação, posterior, é um desdobramento do conteúdo desta
“promessa mãe”. A partir deste ponto, tudo na revelação do Antigo
testamento olha para frente, aponta para frente, e ansiosamente aguarda o
redentor prometido. Esse redentor vindouro, descrito em Gênesis 3.15
apenas como o descendente da mulher, é designado como descendente de
Abraão em Gênesis 22.18 (cf.26.4; 28.14). Gênesis 49.10, mais adiante,
especifica que o redentor deverá ser um descendente da tribo de Judá.
Ainda mais tarde, no curso da revelação do Antigo Testamento, aprendemos
que o redentor vindouro será um descendente de Davi (2Sm 7.12-13)”.[3]
A
mensagem anunciada pelos apóstolos pode ser resumida no encontro da
promessa com o cumprimento. Cristo cumpriu todas as expectativas do
Antigo Testamento.
Havia no povo judeu a expectativa do advento do Messias, o que pode ser provado por afirmações como a de Natanael a Filipe “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1.45); da mulher Samaritana “Eu sei que virá, chamado Cristo” (Jo 4.25), dentre outros.
Na carta aos Efésios, Paulo assegura que a Igreja de Cristo está edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef.
2.20). Foi com base nesse texto que João Calvino rebateu a alegação de
que a Igreja é que determina tanto o grau de reverência que se deve ter
das Escrituras, quanto quais livros devem ser considerados canônicos.
Foi também, calcado nessa passagem, que ele refutou a arguição - ainda hoje apresentada- de que “A Bíblia não criou a Igreja e nem a justifica, muito menos serve de constituição” dela, mas a "pressupõe” e “depende dela para a sua autenticidade” [4]. Para o reformador:
“Se a doutrina dos profetas e apóstolos é o fundamento da Igreja, primeiro importa que haja firme certeza desta doutrina para que, somente então, a igreja comece a existir. [...] se
a igreja Cristã, desde o princípio, esteve fundada nos escritos dos
profetas e na pregação dos apóstolos, a aceitação dessa doutrina, onde
quer que se encontre, é anterior a Igreja, mesmo porque, sem ela, a
Igreja nunca existiria.
Portanto, é pura fantasia e mentira dizer que a Igreja tem autoridade
para julgar a Escritura e que é ela que, a seu bel prazer, determina a
certeza, como se antes disso ela fosse duvidosa e incerta”. [5]
Logo,
defender que a Igreja vem antes da Escritura é praticamente afirmar que
a igreja é anterior a Revelação, o que não é verdadeiro. Se a
ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo, conforme frase
atribuída a São Jerônimo15, não poderia haver Igreja sem um conhecimento seguro dele. Com bem afirmou Tiago Cavaco “é a palavra que dá a igreja e não a igreja que dá a palavra16”. Portanto, não há escapatória, por qualquer ângulo que se analise a questão a conclusão não pode ser outra, senão que "a Igreja é criatura da Palavra17” e não o contrário.
Aldair Ramos Rios
[1] TEMPESTA, Orani João. A Bíblia, Tradição e Magistério. CNBB. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/a-biblia-tradicao-e-magisterio/> Acesso em: 17 de junho de 2020.
[2]
BERTI, Marcelo. Quem definiu o Cânon das Escrituras?. Coalizão pelo
Evangelho. Disponível em: <https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/quem-definiu-o-canon-das-escrituras/>. Acesso em: 17 de junho de 2020.
[3] HOEKEMA, Anthony. A Bíblia e o Futuro. 2 Ed. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2001, p.13.
[4] HAHN, Scott Walker. Razões para crer. 1ª ed.Lorena:Cleófas, 2015, p.82.
[5] CALVINO, João. As institutas da religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa. São paulo. Cultura Cristã, 2006, p.71, 72.
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