O fato de Agostinho crer na predestinação
não o impedia de crer na livre agência do homem. Ele não estava preocupado em
ser “lógico”, mas ser “bíblico”.
É claro que Agostinho não
ignorava os efeitos da queda sobre a vontade do homem, o que ele está trata é do fato de que Deus não criou o homem como um robô. Ou seja, a questão
aqui é: O homem tem vontade.
Agostinho não está discutindo
se o homem tem capacidade para cumprir os preceitos. O que ele fará em outro
momento.
Ele procura mostrar como nas
Escrituras há uma lista grande de ordens dada pelo Senhor ao homem, o que
comprova a livre agência (Alguns exemplos: Rm 12.21; Sal 31.9; Pv 1.8; Pr 3.7,
11, 27, 29; Pv 5.2, Sal 35.4; Pv 1.29).
Aproveitando a oportunidade, é
bom mencionar que o protestantismo de tradição calvinista não nega a livre
agência do homem.
Por exemplo, a Segunda
Confissão Helvética ensina o seguinte sobre a livre agência:
“Do livre arbítrio e da capacidade humana
Nesta
questão, que sempre produziu muitos conflitos na Igreja, ensinamos que se deve
considerar
uma tríplice condição ou estado do
homem.
Qual era o homem antes da queda. Há o
estado em que o homem se encontrava no princípio, antes da queda; era
certamente reto e livre, de modo que podia continuar no bem ou declinar para o
mal, mas inclinou-se para o mal e se envolveu a si mesmo e a toda a raça humana
em pecado e morte(...).
Qual se tornou o homem depois da queda. Depois, importa considerar qual se tornou o homem depois da queda. Sem dúvida, seu entendimento
não lhe foi retirado, nem foi ele privado de vontade, nem foi transformado
inteiramente numa pedra ou árvore; mas seu entendimento e sua vontade foram de tal sorte
alterados e enfraquecidos que não podem mais fazer o que podiam antes da queda. O
entendimento se obscureceu, e a vontade, que era livre, tornou-se uma vontade escrava. Agora ela
serve ao pecado, não involuntária, mas voluntariamente. Tanto é assim que o seu nome é
“vontade”; não é “não – vontade”.
O homem pratica o mal por sua própria vontade. Portanto, quanto ao mal ou ao pecado, o homem não é forçado por Deus ou pelo Diabo, mas
pratica o mal espontaneamente e nesse sentido ele tem arbítrio muito livre. Mas o fato de
vermos, não raro, que os piores crimes e desígnios dos homens são impedidos por Deus de
atingir seus propósitos não tolhe a liberdade do homem na prática do mal, mas é Deus
que pelo seu próprio poder impede aquilo que o homem livremente determinou de modo
diverso. Assim, os irmãos de José livremente determinaram desfazer-se dele, mas
não o puderam, porque outra coisa parecia bem ao conselho de Deus. (...)”
No entanto, ele também ensina
que a livre agência não dispensa a graça. (E esse é o perigo que todos nós
corremos de ressaltar um aspecto da verdade de Deus em detrimento de outro). Ensina
Agostinho:
“(...) quando vive bem e pratica boas
obras (...), não atreva o mortal a se gloriar em si mesmo e não no Senhor, e a
pôr em si mesmo a esperança de viver retamente. Evitando esse comportamento,
não se exporá à maldição do profeta Jeremias, que diz: Maldito o homem que
confia no homem e se apoia no seu braço de carne, e cujo coração se retira do
Senhor (Jer.17.5).”
Confiar na carne é confiar em
si mesmo, no esforço pessoal, é de certa forma se ver como autossuficiente. E
quando há autossuficiência não há espaço para gratidão, para o louvor.
Com toda humildade creio que
Agostinho ensina o seguinte: “com a graça
tudo, sem a graça nada”.
Tal compreensão é
indispensável, porque dela depende o culto. Como haverá lugar “para o louvor da glória da sua graça”,
se á ela se adiciona algo?
“(...) não tenhamos confiança no homem
para a prática do bem, apoiando-nos na carne do nosso braço, mas que o nosso
coração não se afaste do Senhor (...)
Vejamos também os testemunhos divinos sobre
a graça de Deus sem a qual não podemos praticar bem nenhum”.
A “graça” na visão Agostiniana é condição “sine qua non”, ou seja, é a condição sem qual não podemos fazer
bem nenhum. Ele compreendia os efeitos da queda no homem, inclusive expressada
pelo Apostolo Paulo nesses termos: “na
minha carne, não existe bem nenhum” (Rm 7.18). Se pudéssemos indagar a
origem do bem, ele se juntaria a Tiago pra dizer “Toda boa dádiva, todo dom perfeito, toda boa dádiva vem do alto do
Pai das luzes em quem não há sombra de variação” (Tg 1.17).
“Aqueles
a quem não é concedido, ou não querem ou não chegam a realizar o que querem.
Mas aqueles a quem é concedido, querem a ponto de realizar o que querem”.
Ao asseverar que algo é
concedido, ele quer dizer que o que é recebido, vem de fora, isto é, de Deus e
concorda com o apostolo que diz que é Deus quem opera em nós tanto o querer
quanto o realizar (Fl 2.13).
Sem a graça não há capacidade
para fazer o que Deus quer que se faça, segundo Agostinho, se faltar a graça “a lei nada mais será que a força do pecado
(...)” .
No mesmo sentido, ensina a
Segunda Confissão Helvética:
“O homem por si só não é capaz do bem. Com
referência ao bem e à virtude, o entendimento do homem, por si mesmo, não julga
retamente a respeito das coisas divinas. A Escritura evangélica e apostólica
requer regeneração de todos aqueles de entre nós que desejamos ser salvos. Por
conseguinte, nosso primeiro nascimento de Adão em nada contribui para nossa
salvação. São Paulo diz: “O homem natural não aceita as cousas do Espírito de
Deus”, etc. (I Co 2.14). E em outra passagem ele afirma que nós, por nós mesmos,
não somos capazes de pensar nada de bom (II Co 3.5). Ora, sabe-se que a mente ou
entendimento é a luz da vontade, e quando o guia é cego, é óbvio até onde a
vontade poderá chegar. Por isso, o homem ainda não regenerado não tem livre
arbítrio para o bem e nenhum poder para realizar o que é bom. O Senhor diz no
Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo
do pecado” (João 8.34). E o apóstolo São Paulo diz: “Por isso o pendor da carne
é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode
estar” (Rom 8.7). O entendimento das coisas terrenas, porém, não é inteiramente
nulo no homem decaído.
(...)
Quais são os poderes dos regenerados, e de
que modo é livre o seu arbítrio. Finalmente, devemos ver se
os regenerados têm e até que ponto têm livre arbítrio. Na regeneração, o entendimento
é iluminado pelo Espírito Santo, para que compreenda os mistérios e a vontade
de Deus. E a própria vontade não é somente mudada pelo Espírito, mas é também equipado
com poderes, de modo, que ela espontaneamente deseje o bem e seja capaz de praticá-la
(Rom 8.1 ss). Se não concedermos isso, negaremos a liberdade cristã e introduziremos
uma servidão geral. Mas também o profeta registra o que Deus diz: “Na mente
lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei” (Jer 31.33;
Ez 36.26 ss). E o Senhor também diz no Evangelho: “Se, pois, o Filho vos
libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36). E São Paulo também
escreve aos filipenses: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por
Cristo, e não somente de crerdes nele”(Fil 1.29). E outra vez: “Estou
plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la
até ao dia de Cristo Jesus” (v. 6). E ainda: “Deus é quem efetua em vós tanto o
querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (2.13).
Os regenerados operam não só passiva, mas
ativamente. Entretanto, ensinamos que há duas coisas a
serem observadas: Primeiro, que os regenerados, na sua eleição e operação, não
agem só passiva mas ativamente. São levados por Deus a fazer por si mesmos o
que fazem. Santo Agostinho muito bem afirma que “Deus é nosso ajudador. Mas
ninguém pode ser ajudado, se não aquele que faz alguma coisa”. Os maniqueus
despojavam o homem de toda ação e o faziam semelhante a uma pedra ou a um
pedaço de pau.
O livre arbítrio é fraco nos regenerados.
Segundo, nos regenerados permanece a fraqueza. Desde que o pecado permanece em
nós, e nos regenerados a carne luta contra o espírito até o fim de nossa vida,
eles não conseguem realizar livremente tudo o que planejaram. Isso é confirmado
pelo apóstolo em Rom 7 e Gal 5. Portanto, é fraco em nós o livre arbítrio por causa
dos remanescentes do velho Adão e da corrupção humana inata, que permanece em nós
até o fim de nossa vida. Entretanto, desde que os poderes da carne e os
remanescentes do velho homem não são tão eficazes que extingam totalmente a
operação do Espírito, os fiéis são por isso considerados livres, mas de modo
tal que reconhecem a própria fraqueza e não se gloriam de modo algum em seu
livre arbítrio. Os fiéis devem ter sempre em mente o que Santo Agostinho tantas
vezes inculca, segundo o apóstolo: “o que tendes que não recebestes? Se, pois,
o recebestes, por que vos vangloriais, como se não fosse um dom?” A isso ele
acrescenta que aquilo que planejamos não acontece imediatamente, pois os resultados
das coisas estão nas mãos de Deus. Esta a razão por que São Paulo ora ao Senhor
para promover sua viagem (Rom 1.10). E esta é também a razão pela qual o livre
arbítrio é fraco.
Nas coisas externas há liberdade.
Todavia, ninguém nega que nas coisas externas tanto os regenerados como os não regenerados
gozam de livre arbítrio. O homem tem em comum com os outros animais (aos quais
ele não é inferior) esta natureza de querer umas coisas e não querer outras.
Assim, ele pode falar ou ficar calado, sair de sua casa ou nela permanecer,
etc. Contudo, mesmo aqui deve-se ver sempre o poder de Deus, pois essa foi a causa
por que Balaão não pôde ir tão longe quanto desejava (Num, cap. 24), e Zacarias,
ao voltar do templo, não podia falar como era seu desejo (Luc, cap. 1).
Heresias. Nesta
questão, condenamos os maniqueus, os quais afirmam que o início do mal, para o
homem bom, não foi de seu livre arbítrio. Condenamos, também, os pelagianos,
que afirmam que um homem mau tem suficiente livre arbítrio para praticar o bem
que lhe é ordenado. Ambos são refutados pela Santa Escritura, que diz aos
primeiros: “Deus fez o
homem
reto”; e aos segundos: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis
livres”(João 8.36).
Louvemos a Deus pela eficácia
de sua graça em nós e por ter nos libertado das garras da morte e do diabo, que
nos salvou do pecado e levará a termo a sua boa obra em nós.
Um grande abraço de seu irmão!
Aldair Ramos Rios

Comentários
Postar um comentário