O livro começa com
a “carta 194” apontando
para os fatos que levaram Agostinho escrever sobre o tema “graça
e liberdade”.
Esse Pai da Igreja
foi procurado por 2 jovens – Crescônio e Felix-
membros da comunidade – Mosteiro Handrumeto, os quais contaram que
o
mosteiro atravessava momentos de PERTURBAÇÃO porque alguns
apregoavam de tal modo o sentido da graça, que chegavam
a negar a responsabilidade humana, alegando
inclusive que no dia do Juízo Deus não haveria de retribuir a cada
um, conforme as suas obras (Mat. 16.27; Rom. 2.6).
O propósito de Agostinho era
acalmar os ânimos, exortá-los a guardar a “unidade”, evitar
“divisões entre eles” (1 Co 1.10).
E pra isso Agostinho não se cala, ele quer paz, mas não as custas
da verdade.
Então ensina, enfaticamente, que
Deus julgará o mundo
(Rm.3.6), e com base nessa afirmação levanta dois questionamentos:
i. Se não existe a graça de Deus,
como as pessoas serão
salvas?
ii. Se o homem não é um livre agente, como há de ser julgado?
Por óbvio, Agostinho não
acreditava que a vida eterna fosse merecida, vez
que as boas obras fora preparada por Deus de “antemão” para que
andássemos nelas (Ef.2.10), mas o
castigo, diferentemente da
salvação, era merecido.
Ou seja, A salvação não é por
obras, mas a
condenação é.
Dizia ele:
i. a graça de Deus não pode ser negada,
ii. nem a livre agência ressaltada de tal modo a ponto de torná-la
independente da graça de Deus, como se pudéssemos sem a graça
pensar ou fazer algo pra Deus.
A experiência nos prova que embora tenhamos “liberdade” pra
fazer muitas coisas, nem sempre temos CAPACIDADE para fazê-las”
No que diz respeito a “fazer algo pra Deus”, Agostinha afirma:
“Para isso não temos capacidade de forma alguma. Essa é a
razão pela qual o Senhor, ao falar dos frutos da justiça, disse aos
seus discípulos: sem mim nada podeis fazer (Jo 15.5)”.
Contudo, algumas pessoas acreditam que para que possamos receber a
graça de Deus, necessário é agir primeiro, para que Deus vendo
nosso esforço nos recompense com sua graça.
Fazendo assim, tais pessoas procuram no homem motivo de orgulho (1 Co
3.21) e se gloriam no homem, não em Deus (1 Co 1.31).
É verdade que as pessoas fazem escolhas, algumas fazem boas escolhas
outras fazem escolhas ruins. Algumas pessoas buscam a Deus e outras
não, mas o que é que distingue essas pessoas? é a: [i]fé?
[ii]a vida de oração?
[iii] São as suas obras?
Agostinho responde que a distinção quem faz é Deus “Somente
Deus pode distinguir o homem da massa daquela perdição originária
de Adão e torná-la vaso de eleição”.
Isso significa que as boas escolhas, ou seja, a “escolha por Deus”
é fruto do agir dele em nós, do contrário todos faríamos as
mesmas escolhas ruins – pois originários da mesma “massa” -
“farinha do mesmo saco”.
Afirma o apóstolo: “Que é que possuis que não tenhas
recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como
se não tivesses recebido?” (1 Co 4.7).
Aliás, eis aqui uma questão que devemos ter em mente, atribuir a
Deus todo o mérito da nossa salvação é dar-lhe culto, é
reconhecer que ele fez por nós o que jamais poderíamos fazer.
Esse é o louvor: “Grandes coisas fez o Senhor”
e porque ele fez grandes coisas “por nós”, estamos
alegres.
Ou seja, um culto alegre, contagiante tem sua origem na gratidão:
“oh! meu Senhor dá-me mais gratidão por tudo o que fizeste por
mim” (Harpa Cristã)
Continua Agostinho: “de
modo algum poderia haver em nós boas obras, piedosas orações e
firme fé, se não as recebemos daquele do qual diz o apóstolo
Tiago: Todo dom perfeito e toda boa dádiva vem do alto, descende do
Pai das luzes (Tg 1.17)”
“Quem converte o homem é a misericórdia e a graça de Deus”
Verdade é que ao ressaltar a graça de Deus, não devemos fazer de
forma leviana, propagando uma graça barata, a fim de que não
sejamos mal compreendidos, como se disséssemos “façamos o mal
para que venha bem (Rm.3.8)” .
Não devemos ser como aqueles que torciam as palavras de Paulo,
propagando uma graça barata.
Devemos viver como bem afirmo ou apóstolo Pedro (2 Pe 3.14,16):
“Assim, visto que tendes esta esperança, esforçai-vos
ardorosamente para que ele vos encontre em paz, vivendo uma vida sem
mácula e irrepreensível.”
O fato de nos ser imposto um preceito para que entendamos e saibamos
e obedeçamos, prova que somos reconhecidos pela bíblia como “seres
responsáveis”, contudo, afirma Agostinho que “se fosse
possível pela liberdade sem a ajuda da graça de Deus entender e
saber, não se diria: Instrui-me, para que eu conheça os preceitos
(Sl 118.125), e nem estaria escrito no evangelho: Então abriu-lhes a
mente para que entendessem as escrituras (Lc 24.45), e também o
apóstolo Tiago não diria: Se alguém dentre vós tem falta de
sabedoria, peça a Deus, que a concede generosamente (Tg 1.5).
Agostinho termina Carta ressaltando novamente seu propósito:
“poderoso é o Senhor, que oxalá vos conceda e também a nós
alegrar-vos em breve com noticiais sobre o restabelecimento da paz e
da harmonia entre vós”.
Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. A Graça (ii)/
Santo Agostinho. São Paulo:Paulus, 1999. - (Patrística, 13), Pag.11 a 15.

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