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“Nuda Scriptura” e Suficiência das Escrituras

Os evangélicos reformados reconhecem diversas autoridades em suas vidas. Quer se trate dos pais, do governo, da igreja, ou tradições (como aquelas encontradas nos credos e confissões de fé). Pela doutrina de Sola Scriptura eles não pretendem indicar que não têm quaisquer outras autoridades ou até mesmo fontes de revelação, mas que a Escritura por si só é a final e a única fonte infalível. A Bíblia, que os evangélicos reformados assumem como a suprema e final autoridade, contém sessenta e seis livros, sendo trinta e nove do Antigo Testamento e vinte e sete do Novo Testamento. Esta coleção é muitas vezes referida como o “Cânon” das Escrituras. “Canon” (gr. Kanon) é uma palavra que significa “regra” ou “vara de medir”, pois antigamente o padrão de medida era uma cana, uma vara. Assim, nesta cosmovisão, o cânon das Escrituras, ao mesmo tempo em que satisfaz plenamente uma medida, é também o padrão que mede toda a convicção do cristão. Para os cristãos legatários da Reforma, a Escritura é a norma normanda (“norma determinante”) e não a norma normata (“norma determinada”) para todas as decisões de fé e vida. Somente a Escritura é a suprema autoridade em matéria de vida e doutrina; só ela é o árbitro de todas as controvérsias. Trata-se do último tribunal de recursos. Ou seja, para os herdeiros da Reforma, não há nenhuma autoridade acima da Bíblia. A fé cristã reformada crê que Deus se revelou de forma especial pelas Escrituras, cujo centro é a pessoa de Cristo. E na redenção operada por Cristo tem-se o contexto da graça especial. Mas as Escrituras também declaram que Deus se revelou na chamada “revelação geral”, e que neste contexto se encontra a “graça comum”. “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (Sl 19.1).

Conquanto a convicção fundamental evangélico-reformada é que a Bíblia em si mesma não é falível, eles procuram se lembrar que as interpretações privativas da Bíblia eventualmente podem ser. Ninguém pode escapar de sua própria falibilidade. Esta é uma realidade que nos deve conduzir à humildade, e a ler a Bíblia junto da Igreja (os irmãos do passado e do presente), e também nos estimula à prudência. Será que todos os pregadores que eu ouvi acertaram em tudo quanto disseram acerca da Escritura? Será que mesmo os melhores pregadores e intérpretes são infalíveis? Assim, a crença evangélico-reformada na Suficiência das Escrituras não pode ser um sistema cego e hermético, e que prestigie um individualismo arrogante. Em Atos 17.10-11 registra-se que Paulo e Silas chegaram à cidade macedônia de Beréia, e dirigiram-se à sinagoga judaica. Estes judeus bereanos foram “mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”. Esta é uma clara ilustração e um exemplo prático e louvável da aplicação do princípio de Sola Scriptura. Os bereanos foram elogiados por testar e confrontar o ensinamento dos apóstolos contra o testemunho das Escrituras.

Uma aplicação correta do princípio de Sola Scriptura não exclui uma consideração crítica das proposições científicas. Um exemplo foi o desafio de Copérnico e o heliocentrismo. A Bíblia menciona que, no tempo de Josué “o sol parou”, fala acerca dos “quatro cantos da terra” e refere-se às “colunas da terra”. Observe como este tipo de linguagem pode conduzir a um literalismo que será falho. Nos dias de Copérnico, muitos rejeitaram as suas teorias com base neste tipo de interpretações literalistas pelo magistério eclesiástico. O geocentrismo era doutrina assumida em bases religiosas, como se fora uma verdade divina. Conquanto naquele tempo a Igreja Católica Romana aceitasse essencialmente o geocentrismo aristotélico, o modelo de Copérnico influenciou muitos cientistas renomados que viriam a fazer parte da história, como Galileu e Kepler, que assimilaram e melhoraram a sua teoria. Portanto, o conceito de Sola Scriptura não descarta por completo aspectos relevantes do conhecimento, da história e do conhecimento humano, mas assume que, quando há divergências entre aqueles e a Escritura, deve-se afirmar que esta última tem a primazia, e, diante do desafio imposto pela divergência, confrontar a Escritura com a Escritura para testar se as nossas interpretações se encontram falíveis. Os reformadores e posteriores intérpretes das Escrituras perceberam que não havia conflito entre as Escrituras e as descobertas daqueles cientistas; o que era falível era a interpretação oficial da Igreja. Igualmente, como foi dito, a teoria de Copérnico tem sido revisada e recebeu a contribuição posterior de outros estudos experimentais.

Nuda Scriptura não é uma posição formal, mas a designação pejorativa de uma prática. Ela representa a posição de alguns evangélicos ou fundamentalistas que não compreendem Sola Scriptura, crendo que este conceito significa que o lugar ideal para os crentes encontrarem autoridade e interpretarem a Escritura é fazê-lo em um vácuo histórico e cultural, desconsiderando qualquer contexto ou tradição que possa influenciar e vincular o seu pensamento. Historicamente, este modelo de Nuda Scriptura conduziu à rejeição de credos e confissões de fé. Tal posição já tem sido criticada como simplista e arrogante por ignorar o fato de que é impossível interpretar no vácuo. Franklin Ferreira relembra que “a ala radical da Reforma, os anabatistas holandeses e alemães no século dezesseis, alguns puritanos congregacionalistas norte-americanos no século dezessete, e especialmente os evangélicos fundamentalistas norte-americanos no começo do século vinte, ressignificaram o princípio de Sola Scriptura, reinterpretando-o como Nuda Scriptura (‘Escritura por si só’). Esta posição, que se tornou muito influente entre evangélicos na América Latina, adotou a ideia de que a Escritura é total e completamente suficiente como única fonte de doutrina e prática cristãs, e descartou assim o ensino da tradição cristã e mesmo contribuições precedentes de outras áreas de saber. Para estes, não há nenhuma autoridade exceto a Bíblia.” Assim sendo, cada pessoa ou comunidade pode ser conduzida à Bíblia sem, em qualquer momento, remeter-se ao passado e ao contexto cristão. Claramente, esta posição abre as portas para o individualismo, subjetivismo e caos teológico. O modelo Nuda Scriptura veio a reproduzir-se na máxima “Nenhum credo senão a Bíblia”. Certamente há uma diferença entre o debate acerca dos usos dos credos e confissões de fé, e o debate propriamente dito acerca da legitimidade ou propriedade de se elaborar e sustentar um credo. O debate sobre o uso de credos e confissões de fé – “Em que contextos ou em que situações?” – rege-se pela regra da “prudência cristã”, e o uso prático pode diferir de igreja para igreja, de ministro para ministro, ou de uma comunhão de igrejas para outra. Já o modelo anticredalista e anticonfessionalista, por si mesmo, é, segundo entendo, inteiramente equivocado. 

Porém, é necessário ir além. Conquanto o modelo Nuda Scriptura tenha sido historicamente associado ao anticredalismo ou anticonfessionalismo, sou de opinião que ele possui implicações muito mais cruciais e profundas do que pode parecer à primeira vista. Analisado internamente, o modelo Nuda Scriptura tem na rejeição ao símbolo de fé apenas a ponta final do novelo. A grande pergunta é: Que tipo de raciocínio está moldando a justificativa para a rejeição do credo? Assim, sou de opinião que este modelo não é apenas “não recomendável”. Trata-se na realidade de uma impossibilidade quanto à coerência. Considere, apenas como um breve exemplo, uma confissão de fé básica: “Eu creio que Deus, o Pai, enviou o seu Filho, o qual morreu numa cruz em meu lugar.” Esta sintética proposição é inteiramente bíblica. Alías, ela reside no coração do próprio Evangelho. Sem ela, todo o Cristianismo se degenera até perder-se num imenso vazio. Analisemos agora esta breve confissão de fé:
* “Eu” – Quem? Como adquiro este senso de identidade pessoal? Como chego a esta consciência de mim mesmo? Esta consciência pode ser firme se alicerçada apenas na razão? Ou constatada apenas pela dimensão sensorial? Ela pode ser ancorada sem o meio, e sem a percepção sensório-motora? A identidade do “eu” pode ser assumida sem teoreferência? O que me transmite, no tempo e no espaço, a variável constante que me permite dizer: “Eu sou?”. Este “self” (como em língua inglesa) é o mesmo “ego”, de raíz grega, e repetido em todo tempo por conta da influência da metapsicologia freudiana? Já aqui, frente ao fenômeno de minha subjetividade, ver-me-ei frente às formulações teológicas, filosóficas e psicológicas.

* “Creio” – O que é crer? Como se crê? Como resultou esta fé? Que dimensões do ser humano estão envolvidas no ato de crer? Apenas a “notitia”, isto é, o conhecimento, o qual aponta para o fato de que a fé genuína deve crer em alguma coisa? Em outras palavras, a fé deve ter conteúdo intelectual? O que é intelecto? A fé precisa ser inteligente? O que é “inteligência”? A fé, ademais, inclui o “assensus”, isto é, o consentimento, o parecer favorável? O que me tornou favorável? Esta fé, então, corresponde à minha necessidade? Como identifico tais necessidades? Isto já envolve as dimensões cognitivas e conativas, isto é, mobilizam a cognição e a vontade? Aliás, o que são a cognição e a vontade? A fé pode ser meramente um empreendimento intelectual? A fé também inclui a “fiducia”, isto é, a confiança? Existe verdadeira fé salvífica sem a confiança? A confiança é uma realidade ou processo psíquico? Esta confiança é pessoal? Implica necessariamente numa dimensão afetiva? O ser humano é antes de tudo um ser cognitivo ou afetivo? Os nossos afetos estão na base de nossas convicções, ou podemos suspender a nossa base afetiva no processo de conhecimento?

* “Deus” – Aqui definidamente vamos precisar consultar a Teologia. E ademais, observe que o substantivo “Deus” não é a forma do idioma original. Este vocábulo português tem sido utilizado para traduzir alguns substantivos encontrados nos originais bíblicos hebraico e grego. “Deus”, porém, foi um substantivo cunhado numa cultura não cristã, tendo origem, até onde conseguimos acompanhar, na língua latina. E assim, embora o nosso “Deus” seja o mesmo que está revelado na Bíblia, a forma como o nosso “Deus” chegou a corresponder aos substantivos hebraicos e gregos só nos é informada por meio de consulta à história e à etimologia, com estudos linguísticos. Isto é suficiente para nos indicar que, para manter o seu sentido fiel em uma determinada cultura, eu precisarei recorrer aos conceitos daquela cultura, vertidos em linguagem. Assim, isto exigirá de mim um olho na Escritura e outro na cultura.

* “Pai” – Nas sociedades humanas, “pai” é um conceito que necessariamente precisa ser entendido à luz da antropologia e sociologia. “Pai” significa a mesma coisa em todo lugar? O que a palavra “pai” significa na teologia bíblica e em nossa cultura? Os conceitos nas duas esferas se correspondem exatamente? Quais as dimensões emocionais desta palavra? A que simbologia ela remete?
* “Enviou” – O verbo enviar expressa uma ação intencional, um ato pessoal. O que é uma pessoa? De onde derivamos este conceito de “pessoa”? Ele é ao mesmo tempo teológico, filosófico e psicológico. “Deus enviou o seu Filho” é o ato intencional de uma pessoa. O que é a intenção? Isto nos diz, então, que uma pessoa tem auto-determinação e auto-orientação? O que isto significa? Podemos atribuir o substantivo pessoa tanto à divindade quanto aos seres humanos? “Ser humano” e “pessoa humana” são conceitos idênticos? E desde quando as três pessoas da Trindade têm sido referidas como “pessoas”? Qual a origem desta palavra em português? Que palavras, por exemplo, Tertuliano usou originalmente, em seu idioma, para afirmar a personalidade das três pessoas da Trindade? E o que é Trindade? Trata-se de um vocábulo bíblico? E o que é personalidade?

* “Filho” – E assim chegamos ao “Filho”. Que filho? Quem? Em nossas culturas, “filho” é um termo sociológico e antropológico, que também precisa ser confrontado com a Biologia e o estatuto jurídico oferecido pelo Direito. Pelo exame bíblico seremos, então, conduzidos à pessoa histórica de Jesus Cristo. Quem é Jesus Cristo? Deus? Homem? E, para remeter ao que foi dito antes, trata-se de uma pessoa? Difere do Pai? Como se relaciona com a Trindade? O conceito de filho tem dimensão psicológica? Tem efeito simbólico, e portanto de abstração no psiquismo humano? Quando eu penso em meu filho, eu o sinto tal quando penso em Napoleão Bonaparte ou no presidente Barack Obama? Ah, sim, eu o amo. “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (Jo 3.16-17). Eu sou um “filho de Deus” no mesmo sentido em que se diz que Cristo é seu Filho? O que significa “filho unigênito”?

* “Morreu” – Morte. Clinicamente, o que é a morte? Como ela acontece ao ser humano? Quando ela pode ser assumida como um fato? Como dizer que o Filho morreu? O que isto significa? Que implicações tem a morte para o corpo, a mente e o espirito? Cristo é Deus? Deus morreu? E o que aconteceu depois que Cristo morreu?

* “Cruz” – Você não pode entender a realidade da cruz sem recorrer à história não Bíblica, sem entender a história não judaica. E não pode entender a cruz sem entender o estatuto jurídico deste tipo de pena de morte no Império Romano. Aliás, que “Império Romano”? O que é um Império? A cruz tinha algum significado simbólico? Quem era morto na cruz? Que impacto emocional tinha o simbolismo da cruz? “Impacto emocional” e “significado simbólico” são conceitos psicológicos?

* “Em meu lugar” – O que isto significa?! “Em favor de”? “Em benefício de”? Tem o sentido de substituição? Como entendemos psiquicamente a ideia de substituição? Dependemos da apropriação preliminar da Física? Pressupõe-se uma espacialidade? Pressupõe-se alguma temporalidade? Aliás, como intuímos o tempo e o espaço? São realidades físicas e psíquicas? A morte de Cristo foi “vicária”? O que isto significa? Por que? Evoca a ideia de pecado? O que é pecado? Em que resulta a morte substitutiva de Cristo? Em que ela resultou para mim? Como me tornei o objeto desta ação de Deus? O que significa, aliás, ser objeto da ação de um determinado sujeito?

Talvez alguém replique: “Eu não preciso responder a todas as questões que foram propostas a fim de entender aquela sucinta declaração de fé.” Estendidos os devidos respeitos à sua objeção, peço a sua consideração, entretanto, para dois fatos. Em primeiro lugar, talvez você julgue que não precise responder a tais questões porque as respostas a elas já lhe são conceitos dados, já assimilados por você, a ponto de parecerem naturalmente pressupostos ou puro senso comum. Mas pensando daquela forma você não estará desconsiderando o seu contexto e a sua historicidade? Será que um indígena pré-colombiano teria todas essas respostas que você assume como “dadas”? E leve em consideração que você e o tal homem pré-colombiano já compartilham também de realidades em comum, como por exemplo, a sua humanidade. Em segundo lugar, talvez você considere desnecessário ampliar o contexto de significância da confissão pois não problematizou ou refletiu suficientemente em suas proposições. E se tal for o caso, isto não poderia ser uma desculpa para uma proposta antiintelectual e antiteológica? E você seguramente entende que aquelas estão longe de ser todas as perguntas que poderiam ser levantadas… 

Em resumo – e perdoe-me tal ilustração tão gráfica e rudimentar – o modelo Nuda Scriptura julga, simploriamente a meu ver, que aquela bíblica confissão de fé (“Eu creio que Deus, o Pai, enviou o seu Filho, o qual morreu numa cruz em meu lugar“) pode ser significada num sistema fechado, num vácuo. No fim das contas, aquela sintética confissão de fé, vertida em nosso abrasileirado idioma lusitano, que tem suas matrizes gregas e latinas, resulta de todo um processo multidisciplinar. E isto me sinaliza que, para interpretar a Escritura eu precisarei de uma Ciência da Interpretação. Assim, parece-me que a proposta Nuda Scriptura tem constrangedoras implicações lógicas, que se situam para além do anticredalismo puro e simples. No fim das contas, pelo que concluo, este modelo fechado rejeita a interdisciplinaridade e faz da Teologia uma impossibilidade. Entendeu o meu ponto? A proposta Nuda Scriptura, querendo defender um biblicismo estrito, no fim das contas não é rigorosamente bíblica. E ao recusar-se ao exercício interdisciplinar, inviabilizando a Teologia, quando se diz “a Bíblia sozinha“, ou “a Escritura por si só”, também inviabiliza-se qualquer possibilidade para uma abordagem cristã em Filosofia, em Psicologia e em Pedagogia, e isto para dizer o mínimo. Só se vive interdisciplinarmente, pois se vive na realidade; e a disciplina é apenas um recorte para a realidade. Ao que me parece, a posição Nuda Scriptura reduz-se logicamente ao absurdo. Insustentável do ponto de vista prático, é contraditória e geralmente reativa. E como os movimentos reativos encontram-se mais propensos a esposar conceitos puristas, ideais, sem tensões, logo sem as problematizações que a realidade impõe, é bastante comum ver alguns proponentes dessa posição, contraditoriamente, abrindo-se à interdisciplinaridade pela “porta dos fundos”. Mas demonstrar isto em variadíssimos exemplos seria tema para um outro post, em um outro tempo, que, aliás, anda me faltando.

Fonte:https://gilsonsantos.com/2016/10/10/nuda-scriptura-e-suficincia-das-escrituras/

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