Como já visto, o protestantismo não crê que a Bíblia seja a única autoridade, mas a autoridade máxima, a única regra de fé INFALÍVEL, a "Corte Suprema" da fé.
Rejeitam, os protestantes a história e a tradição cristã? NÃO. Segundo Alderi Souza de Matos:
Assim como a fé bíblica é profundamente histórica, porque fundamentada em atos redentores realizados no tempo e no espaço, a fé reformada valoriza extraordinariamente a história da igreja. O nosso senso da história nos lembra que a igreja cristã não começou com a reforma protestante do século dezesseis. Foi por isso que reformadores como Lutero e Calvino não quiseram romper com tudo o que dizia respeito à igreja antiga e medieval. Por exemplo, eles fizeram questão de reconhecer a validade dos antigos concílios ecumênicos da igreja (séculos quarto e quinto) e das extraordinárias formulações teológicas produzidas pelos mesmos – os credos, especialmente o niceno e o de Calcedônia. Os reformadores magisteriais, Calvino entre eles, também tinham grande apreço pelos antigos mestres cristãos, os pais da igreja, e os citaram abundantemente em seus escritos. É por isso que devemos recitar esses credos, utilizar as antigas liturgias, cantar hinos de séculos passados. Não é questão de tradicionalismo: tudo isto nos coloca em contato com a igreja do passado, da qual somos herdeiros e continuadores.
Uma das alegações dos críticos do "Sola Scriptura" é que o princípio supostamente "destrói a autoridade da Igreja". No entanto, tal entendimento não corresponde a verdade.
Os reformadores reconheciam a autoridade da Igreja, mas a subordinava as Sagradas Escrituras.
A autoridade da Igreja seria relativa e a autoridade das sagradas Escrituras ABSOLUTA.
Na época do reformador João Calvino, já existia quem afirmava "que a importância da escritura só é real na medida e na proporção a ela atribuídas pela Igreja [...] Quem poderá dar-nos a certeza de que a escritura procede de Deus?Quem nos poderá garantir que ela foi preservada em sua inteireza até o nosso tempo?Quem nos vai persuadir de que o livro deve ser aceito e obedecido, enquanto outro deve ser rejeitado? Não é a Igreja que cabe impor regras a todas estas coisas? [...]é a igreja que determina o grau de reverência que se deve ter pela Escritura e quais são os livros que devem ser considerados canônicos".
O princípio adotado por aqueles que se opõe ao "SOLA SCRIPTURA", <<pelo menos na prática>>, é o "SOLA ECCLESIA", a qual a Igreja é concebida como a <<autoridade máxima>>, no que diz respeito a fé.
Malgrado concordemos que a Igreja tenha feito a <<escolha>> dos livros da Bíblia, os critérios da <<catolicidade e a apostolicidade>> utilizados, estavam intimamente ligados a <<MENSAGEM PREEXISTENTE>> e consequentemente ao reconhecimento de que nos escritos analisados estavam consignados a "VERDADEIRA MENSAGEM".
<<Mesmo porque a PALAVRA constitui o fundamento da Igreja>>
Segundo Paulo, o apóstolo, em sua Carta aos Efésios, a Igreja está edificada <<sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra angular>>(Ef.2.20).
Nesse sentido, a palavra de Deus é reconhecida como palavra de Deus não porque a Igreja o diz. A palavra antecede a IGREJA, o "LOGOS de DEUS" antecede o próprio TEMPO. A igreja só existe por causa da Palavra e não o contrário.
A Igreja APENAS reconheceu nos livros escolhidos, a PALAVRA DE DEUS, assim como as ovelhas conhecem a voz de seu Pastor.
Lanço mão, do que escreveu Bento XVI em sua "Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Verbum Domini":
"De fato, a Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela"
Quem teria primazia sobre quem?
Para entendermos mais precisamente essa questão, temos que entender um pouco sobre como sabemos o que sabemos, a fim de que entendamos porque no que cremos. Precisamos nos debruçar sobre a "Revelação de Deus". É o que faremos a seguir pela GRAÇA DE DEUS.
O DEUS QUE SE REVELA
O Deus adorado pelos cristãos é um Deus que se dá a conhecer. E nisso, os cristãos católicos e protestantes concordam.
Sobre o assunto é interessante o que nos ensina a Declaração de Fé Reformada:
Deus é um ser pessoal e se revela em termos pessoais. Nos tempos antigos, Ele falou a muitas pessoas em muitas maneiras diferentes. Suas palavras foram acompanhadas e suas promessas se cumpriram por ações que eram sinais de seu poder. Ao falar com os homens, Deus revelou tanto a si mesmo como os seus propósitos para eles, na expectativa de que corresponderiam obedecendo ao que Ele lhes ordenara.
A ordem natural dá testemunho da existência, do poder e da majestade de seu Criador divino, de modo que ninguém possui qualquer desculpa para não crer nEle. Revelação geral é a expressão usada para descrever aqueles meios pelos quais Deus se revela a todos os seres humanos, sem exceção, na natureza, na história e na consciência.
Deus se torna mais plena e completamente conhecido ao seu povo da aliança, com quem Ele estabeleceu um relacionamento especial.[...]
Deus falou de modo especial a Abraão, a quem fez a promessa de que se tornaria o pai de uma grande nação. Ele receberia uma terra e traria bênção a todo o mundo. Essas promessas foram renovadas ao seu filho Isaque e ao seu neto Jacó, que recebeu o nome de Israel. Por meio dos descendentes de Jacó, Israel se tornou um povo especial cujo destino histórico era receber e transmitir a Palavra de Deus ao mundo e preparar a vinda de um Salvador divino. Essa Palavra foi dada por meio de servos escolhidos e codificada em textos escritos que agora chamamos de Bíblia Hebraica, ou seja, o Antigo Testamento. O que foi prometido e prefigurado nas Escrituras do Antigo Testamento se cumpriu em Cristo.
Já o catecismo da Igreja Romana ensina da seguinte forma:
Pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras.
Mas existe outra ordem de conhecimento, que o homem de modo nenhum pode atingir por suas próprias forças: a da Revelação divina (1). Por uma vontade absolutamente livre, Deus revela-Se e dá-Se ao homem. E fá-lo revelando o seu mistério, o desígnio benevolente que, desde toda a eternidade, estabeleceu em Cristo, em favor de todos os homens. Revela plenamente o seu desígnio, enviando o seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo.
Deus se revela ao homem "por etapas", ou seja, gradualmente até revelar-se plenamente na pessoa de Cristo.
Nas palavras de Joseph Ratzinger:
"[...] o Verbo, que desde o princípio está junto de Deus, fez se carne e veio habitar entre nós (Jo. 1.14) <<[...] Jesus é a Sabedoria de Deus encarnada, é a sua Palavra eterna feita homem mortal>> [...]Como nos mostra claramente o Prólogo de João, o Logos indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigênito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo – afirma São João – «fez-Se carne» (Jo 1, 14); por isso Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, é realmente o Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós. Assim a expressão «Palavra de Deus» acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem [...] a Palavra divina exprime-se ao longo de toda a história da salvação e tem a sua plenitude no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. E Palavra de Deus é ainda aquela pregada pelos Apóstolos, em obediência ao mandato de Jesus Ressuscitado: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura» (Mc 16, 15). Assim a Palavra de Deus é transmitida na Tradição viva da Igreja. Enfim, é Palavra de Deus, atestada e divinamente inspirada, a Sagrada Escritura, Antigo e Novo Testamento. Tudo isto nos faz compreender por que motivo, na Igreja, veneramos extremamente as Sagradas Escrituras, apesar da fé cristã não ser uma «religião do Livro»: o cristianismo é a «religião da Palavra de Deus», não de «uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo».[...]"
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RESGATANDO ASPECTOS ESSENCIAIS DA FÉ REFORMADA. Visitado em 28 de junho de 2015.< http://www.mackenzie.br/7069.html>.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Volume I. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 71 -80.
ROPS, Daniel. Que é a Bíblia? .Sexta Parte. Sei e Creio - Enciclopédia do católico no século XX. Flamboyant.p.31.
RATZINGER, Joseph. "Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Verbum Domini". Visitado em 18 de junho de 2015.<http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20100930_verbum-domini.html >
DECLARAÇÃO DE FÉ REFORMADA. Visitado em 28 de junho de 2015. <http://www.martinbucer.com/declaracao-de-fe/>
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html
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