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AS DISTORÇÕES DO CONCEITO HISTÓRICO DO “SOLA SCRIPTURA” – PARTE 3





PORQUE O “NUDA SCRIPTURA” DEVE SER REJEITADO?



O “Nuda Scriptura” ou “solo” Scriptura é marcado pelo individualismo, pela rejeição da autoridade da igreja, confissões de fé da reforma e dos credos ecumênicos.

Ora, não podemos nos esquecer de que o Deus das Escrituras concedeu dons aos homens. Deus constituiu e capacitou pessoas para o ensino de outras pessoas (esse é “o magistério da Igreja)”, para o aperfeiçoamento dos santos, edificação de sua Igreja e fazer com que ela chegue à unidade da fé.



São pessoas constituídas pelo Senhor para instruir a sua igreja, elucidando questões doutrinárias objetivando a preservação da fé.



 Logo, como escreve John Stott:



"Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. "(A cruz de Cristo)



A concepção radical “Escritura só e só a Escritura” trás problemas óbvios:



I.             Resulta em autonomia.



O resultado é o subjetivismo e o relativismo. O próprio fato de Cristo ter dado a Igreja pessoas para o “ministério da Palavra”, ou seja, para o seu ensino (Atos 6: 2-4), refuta a ideia do “Solo” Scriptura.



Podemos aprender com a Igreja primitiva dirimia as disputas, Lucas descreve como Paulo e Barnabé agiram numa determinada situação:



“Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos. Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.” (Atos 15:1,2)



A passagem dos “bereianos” também não sustenta essa ideia. O fato de examinarem nas Escrituras o que era pregado por Paulo, não dispensou a necessidade de um “professor”, alguém que os ensinassem as verdades contidas nas Sagradas Escrituras (cf. Atos 17: 10-11; cf. vv 1-9.).





II.           Resulta numa interpretação subjetiva



É uma questão de fato que existem inúmeras interpretações diferentes de várias partes das Escrituras. O Apóstolo São Pedro em sua epístola afirma que as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (II Ped 1.20). Segundo Davi Charles Gomes:



“Toda interpretação (toda "leitura") parte de pressupostos, de uma experiência pessoal, de uma história; ela nunca é uma leitura "neutra", destituída de preconceitos e outros antecedentes. Basta lembrar que a própria língua de cada povo já estabelece limites e colore aquilo que nela for dito - a linguagem em si mesma já é uma fator cultural intimamente ligado à cosmovisão!”[1]



Existe uma interpretação coerente, verdadeira, por isso, não podemos perder de vista a “boa Tradição”, aquela tradição firmada no Evangelho, na fé dos Pais da Igreja, nos Concílios, nas Confissões de Fé da Reforma, ou seja, aquilo que alguns denominam de “consenso histórico dos fieis”.



O desprezo da tradição interpretativa histórica têm trazido muitos prejuízos para o cristianismo, no protestantismo principalmente, vemos alguns setores fragmentando-se e distanciando-se até mesmo das doutrinas basilares da fé cristã?



A solução para tirania hermenêutica de Roma não pode ser a anarquia hermenêutica.





III.         Resulta em problemas históricos



Evidente que o “Solo” Scriptura não pode ser conciliado com a realidade existente nas primeiras décadas e séculos da Igreja.



Naquela época não existia livrarias cristãs para que se pudesse adquirir um exemplar das Sagradas Escrituras. Os manuscritos eram copiados a mão (Gutenberg não tinha nascido ainda) e não eram encontrados nas casas de todos os crentes.



Cabe ressaltar, que os primeiros livros do Novo Testamento nem sequer tinham sido escritos e alguns foram escritos várias décadas depois de Cristo. Algumas igrejas possuíam alguns livros enquanto outras igrejas tinham livros distintos daquela. Vários anos se passaram até que o Novo Testamento tivesse seus livros definidos da forma como o conhecemos hoje. Mesmo assim, ele era copiado a mão o que deixa evidente a indisponibilidade para cada cristão.



Os defensores do “Nuda Scriptura”, porventura, se vivessem nessa época específica ficariam sem padrão da verdade?



IV.         Resulta em dificuldades em relação ao cânon



Em relação ao fechamento do “cânon”, os radicais teriam grandes dificuldades.

Se não há outra autoridade além das Escrituras como sabem que livro é ou não é Sagrada Escritura?



Diante de alguém, por exemplo, que alegue que o Novo Testamento é composto apenas pelas Cartas de Paulo como se defenderiam objetivamente se rejeitam a autoridade da Igreja e da tradição?



Aliás, a Bíblia simplesmente não caiu do céu em nosso colo. Sequer seriamos capazes de ler uma Bíblia por nós mesmos, se não fosse o trabalho de inúmeras pessoas, incluindo os arqueólogos, linguistas, escribas, críticos textuais, historiadores, tradutores, e outros.



V.   Resulta na impossibilidade de se definir o que é cristianismo e o que não é.



Se a autoridade da Igreja e da Tradição é rejeitada como saber se uma doutrina é ortodoxa ou herética?

Afinal, com a Bíblia na mão alguns afirmam que a doutrina da trindade é Bíblica e outro nega. O mesmo acontece com outras doutrinas das Sagradas Escrituras.



Logo, a definição radical da doutrina, não é verdadeira e não pode prevalecer.

Os reformados contemporâneos devem seguir o exemplo dos reformadores aqui.



Devemos lutar contra dois extremos. Devemos rejeitar a doutrina  “complementarista” do catolicismo romano juntamente com o “Sola Ecclesia” em que a autoridade final ou máxima é a igreja, a juíza de todas as controvérsias. Por outro lado devemos também rejeitar o “Nuda Scriptura” que coloca a autoridade final nas mãos de indivíduos.



CONTINUA ....

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