PORQUE O “NUDA SCRIPTURA” DEVE SER REJEITADO?
O “Nuda Scriptura”
ou “solo” Scriptura é marcado pelo
individualismo, pela rejeição da autoridade da igreja, confissões de fé da
reforma e dos credos ecumênicos.
Ora, não podemos
nos esquecer de que o Deus das Escrituras concedeu dons aos homens. Deus
constituiu e capacitou pessoas para o ensino de outras pessoas (esse é “o magistério da Igreja)”, para o
aperfeiçoamento dos santos, edificação de sua Igreja e fazer com que ela chegue
à unidade da fé.
São pessoas
constituídas pelo Senhor para instruir a sua igreja, elucidando questões
doutrinárias objetivando a preservação da fé.
Logo, como escreve John Stott:
"Desrespeitar a tradição e a
teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado
a igreja em todos os séculos. "(A cruz de Cristo)
A concepção radical “Escritura
só e só a Escritura” trás problemas óbvios:
I.
Resulta em autonomia.
O resultado é o subjetivismo e o
relativismo. O próprio fato de Cristo ter dado a Igreja pessoas para o “ministério da Palavra”, ou seja, para o
seu ensino (Atos 6: 2-4), refuta a ideia do “Solo” Scriptura.
Podemos aprender com a Igreja primitiva
dirimia as disputas, Lucas descreve como Paulo e Barnabé agiram numa
determinada situação:
“Então
alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos
circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos. Tendo tido
Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e
alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre
aquela questão.” (Atos 15:1,2)
A passagem dos “bereianos” também não sustenta essa ideia. O fato de examinarem
nas Escrituras o que era pregado por Paulo, não dispensou a necessidade de um
“professor”, alguém que os ensinassem as verdades contidas nas Sagradas
Escrituras (cf. Atos 17: 10-11; cf. vv 1-9.).
II.
Resulta numa interpretação subjetiva
É uma questão de fato que existem
inúmeras interpretações diferentes de várias partes das Escrituras. O Apóstolo
São Pedro em sua epístola afirma que as Escrituras Sagradas não são de
interpretação particular (II Ped 1.20). Segundo Davi Charles Gomes:
“Toda
interpretação (toda "leitura") parte de pressupostos, de uma experiência
pessoal, de uma história; ela nunca é uma leitura "neutra",
destituída de preconceitos e outros antecedentes. Basta lembrar que a própria
língua de cada povo já estabelece limites e colore aquilo que nela for dito - a
linguagem em si mesma já é uma fator cultural intimamente ligado à cosmovisão!”[1]
Existe uma interpretação coerente,
verdadeira, por isso, não podemos perder de vista a “boa Tradição”, aquela tradição firmada no Evangelho, na fé dos
Pais da Igreja, nos Concílios, nas Confissões de Fé da Reforma, ou seja, aquilo
que alguns denominam de “consenso
histórico dos fieis”.
O desprezo da tradição interpretativa
histórica têm trazido muitos prejuízos para o cristianismo, no protestantismo
principalmente, vemos alguns setores fragmentando-se e distanciando-se até
mesmo das doutrinas basilares da fé cristã?
A solução para tirania hermenêutica de
Roma não pode ser a anarquia hermenêutica.
III.
Resulta em problemas históricos
Evidente que o “Solo” Scriptura não pode ser conciliado com a realidade existente
nas primeiras décadas e séculos da Igreja.
Naquela época não existia livrarias
cristãs para que se pudesse adquirir um exemplar das Sagradas Escrituras. Os
manuscritos eram copiados a mão (Gutenberg não tinha nascido ainda) e não eram
encontrados nas casas de todos os crentes.
Cabe ressaltar, que os primeiros livros
do Novo Testamento nem sequer tinham sido escritos e alguns foram escritos
várias décadas depois de Cristo. Algumas igrejas possuíam alguns livros enquanto
outras igrejas tinham livros distintos daquela. Vários anos se passaram até que
o Novo Testamento tivesse seus livros definidos da forma como o conhecemos
hoje. Mesmo assim, ele era copiado a mão o que deixa evidente a indisponibilidade
para cada cristão.
Os defensores do “Nuda Scriptura”, porventura, se vivessem nessa época específica ficariam
sem padrão da verdade?
IV.
Resulta em dificuldades em relação ao
cânon
Em relação ao fechamento do “cânon”, os radicais teriam grandes
dificuldades.
Se não há outra autoridade além das
Escrituras como sabem que livro é ou não é Sagrada Escritura?
Diante de alguém, por exemplo, que alegue
que o Novo Testamento é composto apenas pelas Cartas de Paulo como se
defenderiam objetivamente se rejeitam a autoridade da Igreja e da tradição?
Aliás, a Bíblia simplesmente não caiu
do céu em nosso colo. Sequer
seriamos capazes de ler uma Bíblia por nós mesmos, se não fosse o trabalho de inúmeras
pessoas, incluindo os arqueólogos, linguistas, escribas, críticos textuais,
historiadores, tradutores, e outros.
V. Resulta na impossibilidade de se
definir o que é cristianismo e o que não é.
Se a autoridade da Igreja e da Tradição
é rejeitada como saber se uma doutrina é ortodoxa ou herética?
Afinal, com a Bíblia na mão alguns
afirmam que a doutrina da trindade é Bíblica e outro nega. O mesmo acontece com
outras doutrinas das Sagradas Escrituras.
Logo, a definição radical da doutrina, não
é verdadeira e não pode prevalecer.
Os reformados contemporâneos devem
seguir o exemplo dos reformadores aqui.
Devemos lutar contra dois extremos.
Devemos rejeitar a doutrina “complementarista” do catolicismo romano
juntamente com o “Sola Ecclesia” em que a
autoridade final ou máxima é a igreja, a juíza de todas as controvérsias. Por
outro lado devemos também rejeitar o “Nuda
Scriptura” que coloca a autoridade final nas mãos de indivíduos.
CONTINUA ....

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