Quando alguém advoga “a Bíblia e a Bíblia só”
está indo além do que o conceito "Sola Scriptura" expressa.
Definir esse princípio somente em torno das palavras "Escritura Somente ou Somente a Escritura" não corresponde a
definição histórica do protestantismo.
A adoção radical
desse conceito tem resultado inúmeros problemas para as Igrejas
protestantes. Nos últimos anos, apologistas católicos romanos e ortodoxos nos
EUA começaram a tirar vantagem da "babel
teológica protestante" e a publicar numerosos livros e
artigos dedicados a criticar o princípio do “Sola Scriptura". Como resultado, muitos
protestantes têm se convertido ao catolicismo romano e Ortodoxo sob a alegação
de que a doutrina do "Sola Scriptura" é indefensável.
No Brasil, embora essa discussão ainda seja imperceptível pra
alguns, os ataques vem crescendo de forma acelerada.
Vários sites apologéticos têm sido criados
para o mesmo fim. O lema é "destruir a doutrina Sola Scriptura pelas Escrituras". Alguns frutos já
estão aparecendo basta dar uma pesquisada na internet para encontrar
testemunhos de conversões de "protestantes" ao catolicismo.
Porém, nem os convertidos ao catolicismo, nem
os apologistas do catolicismo romano perceberam é que o que atacam não é a
doutrina clássica da reforma, mas uma distorção
conceitual do "Sola Scriptura", e não é
possível entender a diferença sem atentarmos para o contexto histórico.
Observações
históricas importantes:
Parte da dificuldade em compreender essa
doutrina da Reforma é devido ao fato de que o debate é feito de forma simplista em termos
"Escritura versus Tradição". É dito
que os protestantes ensinam "Somente
a Escritura" enquanto os católicos ensinam a "Escritura mais a Tradição". Porém, isso não corresponde
a realidade histórica.
É
importante ressaltar que a Reforma Protestante não ocorreu no vácuo. Lutero não acordou um
dia e disse "vou fazer a reforma
protestante". A Igreja daquela época estava em crise e essa não é uma afirmação
apenas de escritores protestantes, basta ler a série de livros do renomado
historiador católico romano DANIEL ROPS, especificamente o livro "A IGREJA DA RENASCENÇA E DA
REFORMA".
A defesa histórica da doutrina "Sola Scriptura" também não surgiu do
nada, mas era a continuidade de um debate de longa data
sobre a relação entre a Escritura e a tradição e sobre o significado da
Tradição em si.
É neste contexto de debate medieval que a
Reforma ocorreu[1]. Quando esse contexto
é mantido em vista, o debate sobre o "Sola Scriptura" se torna muito mais claro.
Quando
os protestantes afirmavam “SOLA SCRIPTURA”,
NÃO estavam afirmando que a Bíblia é a ÚNICA autoridade pra IGREJA.
Mesmo
porque tanto os reformadores quanto os protestantes
da reforma acreditam em outras “autoridades”
tais como o Credo Apostólico, as confissões de fé, os catecismos, decretos, as
opiniões dos escritores antigos, etc.
Todas
as demais autoridades são “normas
reguladas”, mas a Bíblia é a “norma
que regula”, ou seja, todas as demais autoridades devem estar submetidas as
Sagradas Escrituras que é a ÚNICA REGRA
INFALÍVEL E SUPREMA DE FÉ E PRÁTICA.
Isso
significa que se houver conflito entre essas autoridades, a Bíblia será o juiz,
visto que, todos os outros documentos derivam da mensagem nela encontrada e que
foi recebida de viva voz por aqueles que foram testemunhas oculares de tudo o que
Jesus fez e falou.
Em
suma, apesar das Sagradas Escrituras não ser a única autoridade para a Igreja, para
o protestante, ela é a autoridade MÁXIMA.
Nenhum
credo da reforma da reforma ou catecismo define SOLA SCRIPTURA como UNICA
AUTORIDADE pra igreja. Vejamos alguns exemplos:
Confissão de Fé Escocesa de 1560:
“[...] não condenamos irrefletidamente
o que homens bons, reunidos em concílio geral legalmente convocado,
estabeleceram antes de nós, assim não admitimos sem justo exame tudo o que
tenha sido declarado aos homens em nome de concílio geral, pois é manifesto
que, sendo humanos, alguns deles manifestamente erraram, e isso em questões de
máximo peso e importância.1 Então, na medida em que um concílio
confirma sua decisão e seus decretos pela clara Palavra de Deus, nós os
respeitamos e acatamos. Mas, se homens, em nome de um concílio, pretendem
forjar-nos novos artigos de fé, ou tomar decisões contrárias à Palavra de Deus,
então devemos definitivamente negar como doutrinas de demônios tudo aquilo que
afasta nossas almas da voz do único Deus para levar-nos a seguir doutrinas e
decisões de homens.2
A razão por que os concílios gerais se
reuniram não foi para elaborar qualquer lei permanente que Deus não tivesse
feito antes, nem para formular novos artigos para a nossa fé, nem para conferir
autoridade à Palavra de Deus; muito menos para afirmá-la como Palavra de Deus,
ou para dela dar a verdadeira interpretação que não fora previamente expressa
pela sua santa vontade em sua Palavra.3 Mas a razão dos concílios -
pelo menos daqueles que merecem tal nome - foi em parte refutar heresias e
fazer confissão pública de sua fé a ser seguida pela posteridade, e eles
fizeram uma e outra coisa pela autoridade da Palavra de Deus escrita, sem
apelar a qualquer prerrogativa de que, pelo fato de serem concílios gerais, não
poderiam errar. Foi essa a razão primeira e principal dos concílios gerais, em
nossa opinião. Uma segunda foi constituir e observar boa administração na
Igreja, em que - como casa de Deus que é4 – convém que tudo seja
feito com decência e ordem.5 Não que pensemos que a mesma
administração ou ordem de cerimônias possa ser estabelecido para todas as
épocas, tempos e lugares; pois, como cerimônias que os homens inventaram, são
apenas temporais, e, assim, podem e devem ser mudadas quando se percebe que o
seu uso fomenta antes a superstição que a edificação da Igreja. 1. Gl 2:11-14./
2. 1Tm 4:1-3; Cl 2:18-23./ 3. At 15:1, etc./4. 1Tm 3:15; Hb 3:2./ 5. 1Co
14:40.) “
Confissão de Fé de Westminster de 1647:
“X. O Juiz Supremo, pelo qual todas as
controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados
todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas
as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença
nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na
Escritura”.
Confissão
de Fé Batista de 1689:
“10. O juiz supremo, pelo qual todas
as controvérsias religiosas devem ser resolvidas e todos os decretos e
concílios, todas as opiniões de escritores antigos e doutrinas de homens devem
ser examinadas, e os espíritos provados, não pode ser outro senão a Sagrada
Escritura entregue pelo Espírito Santo. Nossa fé recorrerá à Escritura para a
decisão final. 21
21 Mt.22.29,31: Respondeu-lhes Jesus: Errais não
conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.
E quanto à ressurreição dos mortos,
não tendes lido o que Deus vos declarou:
Ef.2.20: ... edificados sobre o fundamento dos
apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular, ...
At.28.23: Havendo-lhe eles marcado um dia,
vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então,
desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do Reino de
Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés,
como pelos profetas.”
Segunda
Confissão de Fé Helvética de 1562:
“A verdadeira interpretação da
Escritura. O Apóstolo São Pedro disse que as Escrituras Sagradas não são de
interpretação particular (II Ped 1.20). Assim não aprovamos quaisquer
interpretações; pelo que nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína
interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja
Romana, isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam que
deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como ortodoxa e genuína
a interpretação da Escritura que é retirada das próprias Escrituras segundo o
gênio da língua em que elas foram escritas, segundo as circunstâncias em que
foram registradas, e pela comparação de muitíssimas passagens semelhantes e
diferentes, e que concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a
glória e a salvação dos homens.
Interpretação dos santos padres. Por
isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem
rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados,
sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles,
quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E
não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles,
unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas,
mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam,
aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.”
Confissão de fé das igrejas reformadas
da França, denominada confissão de fé de la
Rochelle de 1559
“Concluímos que nem a antiguidade, nem
os costumes, nem a maioria, nem sabedoria humana, nem julgamentos, nem prisões,
nem as leis, nem decretos, nem os concílios, nem visões, nem milagres podem se
opor a esta Escritura santa, mas ao contrário, todas as coisas devem ser
examinadas, regulamentadas e reformadas por ela.2 Tm 3.16,17; 1 Pe 1.11,12; 1
Pe 1.20,21; Jo 3.26-31; Jo 5.33,34; 1 Tm 1.15; Jo 15.15;
Jo 20.31; At. 20.27; Dt 4.2; 12.32; Gl 1.8; Pv 30.6; Ap 22.18,19; Mt
15.9; At 5.28,29; 1
Co 11.2,23.
Nossos Credos
Neste espírito, nós reconhecemos os
três Símbolos, a saber:
O Credo dos Apóstolos.
O Credo de Nicéia.
O Credo de Atanásio.
Porque eles estão de acordo com a
Palavra de Deus.”
Confissão de fé Belga de 1561:
“Não nos é permitido considerar
quaisquer escritos de homens, por mais santos que tenham sido, como de igual
valor ao das Escrituras Divinas; nem devemos considerar que costumes, maiorias,
antiguidade, sucessão de tempos e de pessoas, concílios, decretos ou estatutos
tenham o mesmo valor da verdade de Deus, porque a verdade está acima de tudo.
[...] Por isso, rejeitamos de todo o coração tudo aquilo que discorde dessa
regra infalível,6 conforme nos ensinou o apóstolo: “provai os espíritos se
procedem de Deus” (1Jo 4.21), e também: "Se alguém vem ter convosco e não
traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas"
(2Jo 1.10).
1.
2Tm 3.16, 17; 1Pe 1.10-12; 2. 1Co 15.2; 1Tm 1.3 3. Dt 4.2; Pv 30.6; At 26.22;
1Co 4.6; Ap 22:18, 19; 4. Sl 19.7; Jo 15.15; At 18.28; 20.27; Rm 15.4; 5. Mc
7.7-9; At 4.19; Cl 2.8; 1Jo 2.19; 6. Dt 4.5, 6; Is 8.20; 1Co 3.11; Ef 4.4-6;
2Ts 2.2; 2Tm 3.14, 15.”
Os reformadores não eram movidos por um
sentimento anti-histórico. Eles, certamente, levavam em conta a tradição
apostólica e o consenso histórico dos fiéis. Quer a prova? Leia as Institutas
de João Calvino. .
Os reformadores "não jogaram fora o bebê com a água suja da
banheira" como pensam alguns. Os protestantes admitiam a existência
de uma fé comum da Igreja. Nesse sentido, escreveu Robinson Cavalcanti:
"[...] a História da Igreja
não começa no Século XVI, mas no século I. Não começa com as 95 Teses de
Lutero, mas com o discurso de Pedro. Não começa em Wittemberg, mas em Jerusalém. E, muito
antes do Imperador Constantino, no quarto século, a Igreja já tinha se
espalhado por todo o mundo civilizado de então; já tinha definido o Cânon do
Novo Testamento e ratificado o Cânon judaico do Antigo Testamento; já tinha
definido o conteúdo das doutrinas básicas emanadas dessas Escrituras: a
Santíssima Trindade, as duas naturezas, o nascimento virginal, a morte vicária,
a ressurreição, a natureza da Igreja, o Retorno do Senhor e o Juízo Final, o
Novo Céu e a Nova Terra; já tinha definido os Sacramentos do Batismo e da
Eucaristia; já tinha estabelecido ministérios de bispos, presbíteros e
diáconos; já tinha estabelecido um padrão do governo e deliberação nos
Concílios. E, tudo isso, sob a fórmula “pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a
nós”. As bases fundamentais da Igreja
nada têm a ver com Constantino, mas foram estabelecidas antes dele, nesse
legado pensado, ensinado e transmitido pelos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos
e pelos Pais da Igreja. E era assim que os Reformadores Protestantes
acreditavam. Eles nunca pretenderam criar uma nova igreja, fundar uma nova
igreja, mas reformar a Igreja de sempre, Una, Santa, Católica e Apostólica.
Eles repudiavam o romanismo, não o catolicismo, a fé universal histórica. Eles não traziam nada de novo
senão a reafirmação do antigo e do eterno. Os Reformadores olhavam para o
Oriente, onde estavam as Igrejas Bizantinas, as Igrejas Pré-Calcedônias (ou Jacobitas), as Igrejas Assírias (ou Nestorianas) e as Igrejas Uniatas (autônomas, mas vinculadas a
Roma), e olhavam para o Ocidente, para a Igreja Romana ou Latina, e lamentavam
e repudiavam os seus “erros, desvios e superstições” acumulados ao longo dos
séculos, pretendendo questioná-los e expurgá-los, mas, unanimemente as
consideravam como “ramos autênticos da única Igreja de Cristo”. E não era outra
a sua visão em relação às manifestações proto-reformadas, como os valdenses e os hussitas ou moravianos.[2]"
O conhecido pastor e teólogo R.C. SPROUL
também compartilha a mesma opinião:
“A
teologia reformada não é anti-católica. Isso pode parecer estranho, já que a
teologia reformada nasceu diretamente do movimento protestante do século XVI,
movimento que foi chamado de “protestante” porque se trata de um “protesto”
contra o ensino e a atividade do catolicismo romano. Mas o termo católico
refere-se ao cristianismo católico, a essência do que pode ser encontrada nos
credos ecumênicos dos primeiros mil anos da história da Igreja, particularmente
os primeiros credos e concílios da Igreja, como o Concílio de Nicéia, no século
IV e do Conselho da Calcedónia, no século quinto. Ou seja, aqueles credos
contêm artigos de fé comuns compartilhados por todas as denominações que
abraçam o cristianismo ortodoxo, doutrinas como a Trindade, a expiação de
Cristo. As doutrinas afirmadas por todos os cristãos são o coração e o centro
do calvinismo. Calvinismo não parte em busca de uma nova teologia e rejeita a
base comum de toda a teologia que a igreja compartilha.”[3]
CONTINUA ...

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