No cenário religioso mundial, vemos que as antigas religiões
– bramanismo, budismo, etc. – estão vivas e ativas, com seu antigo conteúdo. O
Islã vem demonstrando agressiva vitalidade e expansionismo, ultrapassando, em
números, a Igreja de Roma. Esta, sob João Paulo II e Bento XVI, parece estar
cada vez menos interessada nas multidões nominais (embora não queira
perdê-las), do que em um núcleo enxuto, sintonizado e obediente aos seus dogmas
e magistério.
As Igrejas do Oriente, depois de séculos de opressão pelo Estado
– cesaropapismo, otomanos e comunistas –, vai despertando para a liberdade
sempre marcada pela estabilidade dos seus patriarcas e metropolitas, embasados
nos Pais da Igreja e nas decisões dos concílios da Igreja indivisa, sem
concessões às “ondas” seculares. Essas manifestações religiosas prezam por suas
raízes e identidades, e delas não se envergonham.
Enquanto o espaço
euro-ocidental, ex-cristão, vai recebendo levas de imigrantes não-cristãos para
substituir a mão-de-obra em sua egoística taxa de natalidade de quase zero,
seus governos e suas elites intelectuais vão, com grande rapidez, transformando
o Estado laico em Estado secularista.
Neste apenas os ateus, agnósticos e
materialistas seriam cidadãos de primeira classe, e a religião é desqualificada,
empurrada para fora da esfera pública, para a irrelevância dos espaços fechados
dos templos e dos lares, ou das subjetividades individuais.
O seu alvo
principal é o cristianismo (negação da história e da contribuição cultural), se
iniciando um novo ciclo de perseguição. Esse secularismo é fruto não só do
Iluminismo, mas também do liberalismo teológico, com uma religião que nega a si
mesma.
Lamentavelmente, o secularismo-liberalismo se consolidou nos espaços
protestantes. Não somente a Reforma foi abandonada, mas também o próprio
cristianismo, como entendido desde a sua origem.
Uma coisa é atualizar
linguagem, métodos, ênfases, estratégias; outra é substituir conceitos e
preceitos de uma religião que se pretende de revelação. Doutrinas e padrões de comportamento
são relativizados, e esses aloprados ainda esperam que uma pessoa humana normal
adira a essa mixórdia!
No Brasil, a declinante, mas ainda hegemônica Igreja de
Roma, com sua diversidade, se move entre conter a debandada das massas e
estabelecer núcleos conscientes.
As igrejas orientais ainda não saíram dos
guetos étnicos. O secularismo avança com os “sem-religião”, ou com os que
querem vínculos sem compromisso.
O protestantismo não cresce, incha, com as
igrejas históricas desorientadas, sem perceber o valor do seu depósito.
O
pentecostalismo vai se fragmentando em uma miríade de “ministérios”: empresas
centradas nos líderes. Os analistas que, lucidamente, desqualificam o caráter
protestante e evangélico das seitas pseudo(neo)pentecostais são acusados de
“elitistas”.
Ex-personalidades evangélicas abandonam, em autoflagelação ou
sarcasmo, o seu passado, sucumbindo ao humanismo, ao secularismo, ao
liberalismo ou a seus egos narcísicos, deixando uma geração sem heróis.
Nosso
protestantismo histórico (congregacionalista ou presbiteriano) nasceu sob
perseguição e tensão polêmica, confundindo catolicismo (herança histórica) com
romanismo.
Sua identidade foi construída mais pelo antirromanismo do que pela
afirmação das confissões de fé e da teologia reformada, com comportamento mais
de seita do que de igreja, negando a ação do Espírito Santo nos 1.500 anos que
precederam a Reforma, desconhecendo os 1.200 anos da cristandade oriental (a
mais antiga).
A insistência nessa “apostasia geral da Igreja” e na mitificação
da Igreja de Jerusalém (que adotaria os procedimentos parlamentares do século
16) não foi uma resposta adequada ao mito monocêntrico da Igreja de Roma como
“a” Igreja original (da qual todas teriam saído), desconhecendo o caráter
policêntrico das sés deixadas nos primeiros séculos pelos apóstolos e Pais
apostólicos, que estabeleceram o cânon bíblico, as doutrinas centrais nos
credos, os sacramentos e o governo episcopal (com as ordens de bispos,
presbíteros e diáconos), deliberando em concílio, do qual Roma é que se afastou
com sua pretensão.
O protestantismo iniciou a sua decadência quando confundiu o
livre exame com a livre interpretação. O protestantismo brasileiro aprofundou a
crise, pela ignorância ou rejeição da história da Igreja indivisa.
Identificou-se,
erroneamente, episcopado com romanismo, desconhecendo-se tanto a teologia,
quanto a prática, que essa foi a forma consensualmente estabelecida em toda a
cristandade já um século após a ressurreição de Cristo, e que a primeira
Reforma – representada hoje pelos signatários, anglicanos e luteranos, do
Acordo de Porvoo – manteve o episcopado histórico, compartilhando-o com suas
Igrejas filhas através do mundo.
Sem um retorno humilde, sério e sincero, ao
passado, não sairemos da crise do presente, nem construiremos o futuro desejado
pelo Senhor da Igreja, em verdade e unidade.
______________
[i] Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do
Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e
prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada e
Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios.
Fonte:http://www.dar.org.br/episcopal/133-igreja--o-futuro-esta-no-resgate-do-passado.html


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