Pular para o conteúdo principal

SALVAÇÃO: DÁDIVA DIVINA OU CONQUISTA HUMANA?





 

 


 



Desde o início têm existido duas tendências no cristianismo com respeito à salvação. De um lado, salienta-se a prioridade da graça divina e na salvação como resultado da iniciativa soberana e misericordiosa de Deus.



Nessa perspectiva, a única participação do indivíduo é receber, por meio da fé, o que lhe é oferecido graciosamente por Deus. De outro lado, dá-se ênfase a um maior envolvimento do ser humano na experiência de salvação. Ao invés da aparente passividade da fé, acentua-se a prática de ações positivas ou “boas obras” como requisito igualmente importante para o recebimento da salvação.



No Novo Testamento, a primeira abordagem é representada principalmente pelo apóstolo Paulo e a segunda, por Tiago. Na maior parte da história da igreja, a segunda abordagem tem tido predominância, e isso desde uma época muito remota.



Os historiadores e teólogos chamam a atenção para uma clara mudança de perspectiva nos escritos cristãos posteriores ao Novo Testamento.



Entre os anos 95 e 150 foi composto um conjunto de documentos que ficaram conhecidos como “pais apostólicos”. Os principais são a primeira epístola de Clemente, sete cartas de Inácio de Antioquia, a Didaquê, a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Poucas décadas os separam do Novo Testamento.





 
Todavia, a mudança de perspectiva é sensível: em contraste com a ênfase paulina na graça e na fé, a salvação passa a ser entendida em termos de obediência a uma nova lei. Ela não é vista primordialmente como uma dádiva graciosa de Deus, mas como fruto do esforço e da fidelidade dos cristãos.



Em parte, essa mudança foi uma reação contra o crescente antinomismo (rejeição da lei e dos mandamentos) que se difundia entre os cristãos. Muitos crentes, entendendo o evangelho de maneira parcial, tendiam a desprezar o conteúdo ético da vida cristã. Esqueciam-se de que a fé genuína precisa ser acompanhada por frutos (Gl 5.6).



No entanto, essa preocupação com a obediência levou a um entendimento legalista e moralista da vida cristã que persistiu ao longo dos séculos. Uma das poucas vozes que defenderam a perspectiva paulina da supremacia da graça e da fé foi o grande bispo Agostinho de Hipona (354-430).




Porém, seu pensamento nessa área foi rejeitado pela igreja. Solidificou-se a ideia de que a salvação é um processo que dura a vida inteira, no qual a perseverança e a prática do bem por parte dos cristãos contribuem decisivamente para o resultado final.



Somente com a Reforma do século 16 seria resgatado o ensino do apóstolo Paulo de que “pela graça sois salvos mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2.8). Dolorosamente, essa mensagem libertadora tem sido esquecida por grande número de herdeiros da Reforma.



Muitos evangélicos atuais, embora teoricamente comprometidos com a doutrina da justificação pela graça mediante a fé, vivem na prática um entendimento legalista da salvação.



Esta é vista como uma transação com Deus, na qual Deus abençoa e recompensa os crentes na medida em que estes se mostram obedientes e zelosos na prática de determinadas ações, como orar, contribuir e frequentar a igreja.





Quando isso ocorre, o relacionamento com o Senhor deixa de estar fundamentado na graça, e sim nos merecimentos humanos. É por isso que tantos se sentem à vontade para reivindicar direitos e até dar ordens a Deus, esquecendo se de uma verdade destacada por Martinho Lutero: “Somos todos mendigos”, isto é, plenamente carentes da graça de divina. Existe um lugar importantíssimo para a obediência e as boas obras na vida cristã, mas não como condição para sermos aceitos e abençoados pelo Deus Gracioso.



Alderi Souza de Matos

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

GRÁTIS

  Você já viu propagandas que prometem “Ofertas grátis!”? Às vezes nós recebemos propagandas pelo correio que anunciam: “Grátis!” Essas coisas são realmente grátis? Freqüentemente você consegue um item grátis unicamente se primeiro adquirir outra coisa, ou precisa pagar o “frete” . Talvez você já tenha visto coisas em frente de jardim com uma placa presa a eles onde se lê: “Grátis”. São coisas que os donos não precisam ou não querem mais. 1   Se você visse uma propaganda que dissesse “Roupas Grátis!” ou “Brinquedos Grátis!”, o que você pensaria? Você imaginaria que essas roupas ou brinquedos eram usados? Presumiria que eram feios? Se soubesse, contudo, que eles eram bonitos, novinhos em folha, coisas de valor, você correria para conseguir algum, ou você ainda ficaria pensando qual era o truque?   Em nossa sociedade poucas coisas são grátis. Nós temos que comprar comida, roupas, material escolar, provisões para a casa...

NEM TUDO É PRECONCEITO

Por que qualquer divergência que tenhamos em relação a um posicionamento hoje é visto como preconceito?   É exatamente com aqueles que se autodenominam “tolerantes” que vemos o que há de mais rígido em matéria de extremismo e de intolerância. Os mesmos que pregam a tolerância e advogam vivermos numa sociedade pluralista, são tão intolerantes quantos aqueles que acusam.     Temos visto nos últimos anos no Brasil uma tentativa de impor uma mordaça naqueles grupos que insistem em defender posições mais conservadoras, principalmente, no que se diz respeito à fé e a moral.     Ora, não precisamos ser “gênios” para perceber que sempre houve e sempre haverá divergências numa sociedade; visto que essa é uma mão de duas vias, a experiência nos prova que quando um grupo afirma o outro nega.     Tentar impedir um indivíduo de externar suas opiniões ou de exercer o seu direito de discordar, é trazer de volta para história à ditadura,...

O homem não pode salvar-se a si mesmo

 A Bíblia é categórica em afirmar que todos pecaram. 1 Não há justo nenhum sequer. 2 O homem em seu estado natural está cego. 3 perdido. 4 e morto. 5 Ele está escravizado pela carne, pelo mundo e pelo diabo. 6 O homem é concebido em pecado. 7 e não tem poder para livrar-se dele por si mesmo. 8 O pecado atingiu todo o seu ser: mente, corpo e espírito. A não ser que Deus o salve, ele perecerá eternamente. 1 Rm 3:23; 2 Rm 3:10; 3 2 Co 4:4; 4 Lc 19:10; 5 Ef 2:1; 6 Ef 2:2,3; 7 Sl 51:5; 8 Jo 8:34. Fonte:http://hernandesdiaslopes.com.br/2005/10/a-soberania-de-deus-na-salvacao/