Conhece o leitor o quadro de Holman Hunt, líder da Irmandade Rafaelita,
intitulado "A Sombra da Morte"? Ele representa o interior da
carpintaria de Nazaré. Jesus, nu até a cintura, está em pé ao lado de um
cavalete de madeira sobre o qual colocou a serra. Seus olhos estão erguidos ao
céu, e seu olhar é de dor ou de êxtase, ou de ambas as coisas. Seus braços
também estão estendidos acima da cabeça. O sol da tarde, entrando pela porta
aberta, lança, na parede atrás dele, uma sombra negra em forma de cruz. A prateleira
de ferramentas tem a aparência de uma trave horizontal sobre a qual suas mãos
foram crucificadas. As próprias ferramentas lembram os fatídicos prego e
martelo.
Em primeiro plano, no lado esquerdo, uma mulher está ajoelhada entre as
aspas de madeira. Suas mãos descansam no baú em que estão guardadas as ricas
dádivas dos magos. Não podemos ver a face da mulher, pois ela se encontra
virada. Mas sabemos que é Maria. Ela parece sobressaltar-se com a sombra em
forma de cruz que seu filho lança na parede.
Os pré-rafaelitas têm fama de serem sentimentais. Contudo, eram artistas
sérios e sinceros, e o próprio Holman Hunt estava decidido, conforme ele mesmo
disse, a "batalhar contra a arte frívola da época" — o tratamento
superficial de temas banais. Ele passou os anos de 1870 a 1873 na Terra Santa,
onde pintou "A Sombra da Morte" em Jerusalém, no telhado da sua casa.
Embora a idéia historicamente seja fictícia, é, contudo, teologicamente
verdadeira. Desde a infância de Jesus, deveras desde o seu nascimento, a
cruz lança uma sombra no seu futuro. Sua morte se encontrava no centro da sua
missão. E a igreja sempre reconheceu essa realidade.
Imagine um estranho fazendo uma visita à Catedral de São Paulo em Londres.
Tendo sido criado numa cultura não cristã, o visitante quase nada sabe a
respeito do Cristianismo. Todavia, ele é mais que um simples turista; tem
interesse por obras de arte e deseja aprender.
Descendo a Rua Fleet, ele se impressiona com a grandeza das proporções do
edifício, e se admira de que Sir Christopher Wren pudesse ter concebido um prédio
desses depois do Grande Incêndio de Londres em 1666. A proporção que seus
olhos tentam abarcar a tudo, ele não consegue deixar de perceber a enorme cruz
dourada que domina a cúpula.
Ele entra na catedral e vai até seu ponto central, e pára sob a cúpula.
Tentando compreender o tamanho e a forma do edifício, ele se conscientiza de
que a planta baixa, que consiste de nave e transeptos, é cruciforme. Andando ao
redor, ele observa que cada capela lateral contém o que lhe parece uma mesa,
sobre a qual, proeminentemente exposta, está uma cruz. Ele desce à cripta a fim
de ver os sepulcros de homens famosos como o próprio Sir Christopher Wren, Lord
Nelson e o duque de Wellington: em cada um deles encontra-se gravada ou
estampada em relevo uma cruz.
Voltando para cima, ele resolve assistir ao culto que está prestes a
começar. O homem ao seu lado usa uma pequena cruz na lapela, e a senhora do seu
outro lado leva uma cruz no colar. Seus olhos agora observam o vitral colorido
da janela ao leste. Embora de onde está ele não possa ver os detalhes, percebe,
porém, que o vitral contém uma cruz.
De repente, a congregação se põe de pé. Entram o coro e os clérigos,
precedidos por alguém que carrega uma cruz processional. Entram cantando um
hino. O visitante olha para o boletim de culto e lê as palavras de abertura:
No calvário se ergueu uma cruz contra o céu,
Como emblema de afronta e de dor. Mas eu amo essa cruz: foi ali que Jesus
Deu a vida por mim, pecador.
Do que vem a seguir, ele chega a compreender que está testemunhando um
culto de Santa Comunhão, e que este enfoca a morte de Jesus. Pois quando as
pessoas que se encontram ao seu redor vão ao altar para receber o pão e o
vinho, o ministro lhes fala do corpo e do sangue de Cristo. O culto termina com
o cântico de outro hino:
Ao contemplar a tua cruz
E o que sofreste ali, Senhor, Sei que não há, ó meu Jesus,
Um bem maior que o teu amor.
Não me desejo gloriar
Teu, sempre teu, serei aqui.
Embora a congregação se esteja dispersando, uma família fica para trás.
Trouxeram o filho para ser batizado. Juntando-se a eles na frente, o visitante
vê o ministro primeiro derramar água sobre a criança e então fazer o sinal da
cruz na sua testa, dizendo: "Eu te marco com o sinal da cruz a fim de mostrar
que não te deves envergonhar de confessar a fé do Cristo crucificado. . ."
O estranho deixa a catedral impressionado, mas intrigado. A insistência,
repetida por palavra e símbolo, à centralidade da cruz foi admirável. Contudo,
levantaram-se questões em sua mente. Um pouco da linguagem usada pareceu
exagerada. Será que os cristãos, por causa da cruz, realmente relegam o
mundo como perda, e se gloriam somente nela, sacrificando tudo por ela? Pode a
fé cristã ser resumida corretamente como a "fé do Cristo
crucificado"? Quais as bases, pergunta-se ele, dessa concentração na cruz
de Cristo?


Comentários
Postar um comentário