Os Efeitos Nóeticos do Pecado e a “Antítese”
Em princípio afirmamos, portanto, que o homem, na totalidade do seu ser, é um reflexo da imagem de Deus, e que a racionalidade do homem é um dos elementos que integram essa imagem. Além disso, podemos dizer que quando o homem tem “autoconhecimento”, isto é, quando conhece a Deus e se reconhece como imagem de Deus, ele sabe o lugar que o pensamento deve ocupar em sua vida.
Entretanto, “todos pecaram e carecem da glória de Deus”. A queda atingiu o homem em toda a sua totalidade, e isso inclui o seu pensamento. Os efeitos do pecado sobre a mente do homem são claramente ensinados em Romanos 1, 1Coríntios 2 e Efésios 2. A rejeição do conhecimento de Deus leva os homens a construir raciocínios falsos, a partir de ídolos.
A conseqüência inicial disso é que a reflexão cristã precisa guardar uma suspeita fundamental em relação a todo pensamento humano; uma suspeita religiosa. Trata-se de um questionamento permanente a respeito do ponto de partida do pensamento: há nele elementos idólatras? Quais são? Como a rejeição do conhecimento de Deus está afetando essa reflexão? Numa palavra: Antítese.
Em diversas ocasiões tentou-se sintetizar o pensamento cristão com outras visões de mundo. Esse é o caso do platonismo cristão no período patrístico, da filosofia tomista, da teologia liberal ou da teologia da libertação. O que se pressupõe nessas tentativas é que a natureza pode operar adequadamente sem a necessidade de um controle da fé, e assim sistemas compostos sem ter a fé em Cristo como ponto de partida poderiam ser verdadeiros. Mas resultado nessas sínteses foram soluções dualistas e distorções inevitáveis da fé cristã.
Essas sínteses não poderiam ser bem sucedidas uma vez que a direção de cada mentalidade é dada por seu ponto de partida religioso, e os pontos de partida são sempre absolutos. Conceitos relativos podem ser sintetizados, mas pontos de partida absolutos e contrários são mutuamente excludentes. Sistemas com pontos arquimedianos diferentes (com seus respectivos “archés”) permanecem numa oposição insolvível e mesmo que contenham idéias verdadeiras que podem ser compartilhadas até certo ponto, são estruturalmente incompatíveis.[11] Linhas paralelas nunca se tocam.
Na verdade a oposição entre sistemas distintos é a oposição entre modos distintos de vida religiosa, pois o ponto de partida religioso do pensamento é o ponto de partida de toda a existência. Assim, o cristianismo é um modo de existência singular e fundamentalmente oposto aos modos de existência que tem como ponto de partida algum ídolo. Dizemos que há uma antítese absoluta entre a mente cristã e as mentes idólatras. Santo Agostinho falava da Civitas Dei numa oposição sem fim à Civitas Mundi. A cidade de Deus é a igreja, uma cidade que existe hoje, “sobre o monte”, e que funciona tendo Deus como centro. A cidade do homem é Babel, e seus cidadãos constroem sua identidade e sua cultura a partir da absolutização de alguma realidade do cosmo. Embora essas duas cidades estejam atualmente misturadas, são contrárias, tendo pontos de partida contrários, e projetos de civilização contrários: “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.”[12]
Se queremos confrontar o humanismo, precisamos assumir uma posição antitética. “Não ameis o mundo”, disse João.[13] O autoconhecimento nos leva naturalmente a compreender natureza irreconciliável da tensão entre a Civitas Dei e a Civitas Mundi, e a aceitar a cruz de Cristo permanecendo no mundo, mas contra mundum. [14] Assumir a posição antitética é obedecer ao imperativo paulino: “Não vos conformeis com este século.” Somente o posicionamento corajoso e integral pela fé cristã pode nos libertar do molde de existência imposto a nós pela Civitas Mundi, e esse posicionamento exige o pensamento antitético e o desafio consistente da mente do mundo desde as suas raízes. Como disse Kuyper cem anos atrás:
O Cristianismo está exposto a grandes e sérios perigos. Dois sistemas de vida estão em combate mortal. O Modernismo está comprometido em construir um mundo próprio a partir de elementos do homem natural, e a construir o próprio homem a partir de elementos da natureza; enquanto que, por outro lado, todos aqueles que reverentemente humilham-se diante de Cristo e o adoram como o Filho do Deus vivo, e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a herança cristã ... Desde o início, portanto, tenho sempre dito a mim mesmo, - Se o combate deve ser travado com honra e com esperança de vitória, então, princípio deve ser ordenado contra princípio. A seguir, deve ser sentido que no Modernismo, a imensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depois também, deve ser entendido que temos de assumir nossa posição em um sistema de vida de poder, igualmente abrangente e extenso. E este poderoso sistema de vida não deve ser inventado nem formulado por nós mesmos, mas deve ser tomado e aplicado como se apresenta na História.[15]
Isto é pensar antiteticamente. Pensar o mundo de forma coerente, a partir da fé, e então pensar as mentes incrédulas a partir dessa mesma fé. Podemos nos lembrar aqui das palavras de Paulo em 1Coríntios 2.14-16. Pensar antiteticamente seria assumir a mente de Cristo e discernir todas as coisas por meio do evangelho. É claro que o homem natural não aceitará nossos pensamentos, porque ele não poderá entendê-los; por outro lado, nós poderemos discernir todas as coisas, mesmo que sejamos um mistério incompreensível para eles. Mas se não praticarmos esse discernimento, seremos para sempre crianças, andando segundo os homens.[16]
Ao pensar antiteticamente, examinamos os pensamentos dos incrédulos até às suas raízes religiosas, e observamos os efeitos malignos dessas raízes em sua produção cultural e em suas existências individuais. Examinamos também os problemas contemplados pelos pensamentos dos incrédulos a partir de nossa fé, e damos forma assim à resposta cristã a esses problemas libertando-nos de forma consciente e decidida da tirania do “príncipe da potestade do ar.”[17] Assim, pensar antiteticamente é descobrir exatamente em que ponto o pensar cristão é irredutivelmente distinto do pensar não cristão, ordenando princípio contra princípio, mente contra mente, civitas contra civitas. Todos os cristãos, mas especialmente aqueles envolvidos com educação e produção de conhecimento devem sujeitar os conceitos e teorias de seu próprio campo à análise antitética.
Fonte: Existe uma “forma Cristã” de Pensar?
A Idéia de uma Reflexão Cristã na Tradição Reformacional - Guilherme V. R. Carvalho[1]
(Artigo Publicado na RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez 2005)


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