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NÃO FAÇA CONFUSÃO: LIVRE EXAME, NÃO É LIVRE INTERPRETAÇÃO




Geralmente quando saímos em defesa da confessionalidade, somos frequentemente mal compreendidos. E lá vem a voz do “crente biblicista”, com a seguinte argumentação: – Só leio a Bíblia.A questão não é se você lê a Bíblia (por que isso é obrigação de todo crente), mas como você lê?

Vamos esclarecer?

Defender a confessionalidade não é discutir a autoridade bíblica, mesmo por que, partimos da AFIRMAÇÃO que a Escritura Sagrada sempre será nossa única regra de fé e prática.

O que queremos dizer com isso é que seria impossível ler as Sagradas Escrituras sem pressupostos interpretativos e teológicos.


No texto de Davi Charles Gomes, postado no site Coram Deo¹, encontramos a seguinte constatação.

Toda interpretação (toda "leitura") parte de pressupostos, de uma experiência pessoal, de uma história; ela nunca é uma leitura "neutra", destituída de preconceitos e outros antecedentes. Basta lembrar que a própria língua de cada povo já estabelece limites e colore aquilo que nela for dito - a linguagem em si mesma já é uma fator cultural intimamente ligado à cosmovisão!¹

Tem razão o autor, não importa o quanto você negue a sua confessionalidade, você é confessional e interpretará a Bíblia sob essa perspectiva. Não estou aqui fazendo apologia ao relativismo. Existe uma interpretação coerente, verdadeira, existe uma verdade absoluta.

Não podemos perder de vista a “boa Tradição”, aquela tradição firmada no Evangelho, na fé dos Pais da Igreja, nos Concílios, nas Confissões de Fé da Reforma, ou seja, aquilo que alguns denominam de “consenso histórico dos fieis”.

A desconsideração desta tradição interpretativa histórica, trouxe muitos prejuízos para o cristianismo, o que vemos, principalmente, no protestantismo, se não a fragmentação e o distanciamento até mesmo das doutrinas basilares da fé cristã ?.

AO LADO, Charge colocada em BLOG CATÒLICO, com a finalidade de culpar Lutero pela confusão doutrinária estabelecida na cristandade.

É uma critica ao principio SOLA SCRIPTURA, para eles, este princípio deu origem a toda essa bagunça que a gente vê. O que muita gente parece desconhecer, é que Lutero NUNCA defendeu “livre interpretação”, mas “LIVRE EXAME”. E essa afirmação faz toda a diferença.

Uma coisa é poder investigar nas Escrituras se as palavras proferidas pelo padre, pelo pastor, pelo Bispo ou pelo Papa, são de fato e de verdade a “ Fé primitiva da Igreja” . Outra coisa é interpretar as Escrituras ao léu.

Afirma de forma coerente, Igor Itamor Lazari Bona, em seu texto “A Reforma: Uma Bela Tradição Bíblica”, que:

“A Reforma Protestante procurou diferenciar o que era mera tradição do que é a Verdadeira Palavra de Deus. Longe de romper com toda a tradição, os reformadores procuraram preservar da longa tradição aquilo que não contradizia o que ensinam as Escrituras. O trabalho da Reforma foi o de colocar a Bíblia na mão do povo para que homens e mulheres pudessem viver livres. Quem não conhece a Escritura não é livre. Nenhum homem é livre se não sabe diferenciar o que realmente Deus quer e exige, daquilo que são meras tentativas humanas de manter privilégios. Sola Scriptura!!! Os reformadores queriam repensar o mundo e a igreja à luz da Palavra de Deus. Reafirmando diante dos Papas, príncipes seculares e eclesiásticos e demais senhores que mais importante é a Palavra de Deus do que qualquer outra ordem ou vontade humana.”²

E mais :

 “... a Reforma Protestante não é de Lutero, nem de Calvino, nem de qualquer outro. A Reforma é fruto de um movimento de piedade genuína, levada a cabo por milhares de homens e mulheres, e dirigida pelo Espirito Santo que soprou um renovo na Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Culpar Lutero e os Reformadores pelos desvios subseqüentes de “movimentos radicais”, é demonstrar ignorância histórica deste maravilhoso momento na vida da Igreja de Cristo.

A SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA, que foi elaborada em 1562 por Heinrich Bullinger, publicada em 1566 por Frederico III da Palatina e adotada pelas Igrejas Reformadas da Suíça, França, Escócia, Hungria, Polônia e outras, trata sobre a interpretação que se deve dar a Escritura, abaixo parte deste importante documento que reflete bem, qual era a posição de nossos irmãos sobre tão importante assunto:

1. "Da interpretação das Escrituras Sagradas; e dos santos padres, dos concílios e das tradições

A verdadeira interpretação da Escritura. O Apóstolo São Pedro disse que as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (II Ped 1.20). Assim não aprovamos quaisquer interpretações; pelo que nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana, isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam que deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como ortodoxa e genuína a interpretação da Escritura que é retirada das próprias Escrituras segundo o gênio da língua em que elas foram escritas, segundo as circunstâncias em que foram registradas, e pela comparação de muitíssimas passagens semelhantes e diferentes, e que concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a glória e a salvação dos homens.

Interpretação dos santos padres. Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

Concílios. Nessa mesma ordem colocam-se também as definições e cânones dos concílios. Por esse motivo, nas controvérsias religiosas não aceitamos como imposição as simples opiniões dos Santos Padres ou os decretos dos concílios; muito menos, os costumes herdados ou, até, o fato de ser uma opinião partilhada por uma multidão ou consagrada por um longo tempo. Quem é o juiz? Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus. Jeremias e outros profetas condenaram severamente os concílios de sacerdotes estabelecidos contra a lei de Deus; e nos advertiram diligentemente que não ouvíssemos os nossos pais, nem trilhássemos os seus caminhos, porque eles, andando segundo suas próprias invenções se desviaram da lei de Deus.

Tradições de homens. Rejeitamos, igualmente, as tradições humanas, mesmo que venham adornadas de títulos atraentes, como se fossem divinas e apostólicas, entregues à Igreja de viva voz pelos apóstolos e, como pelas mãos de varões apostólicos, aos bispos que os sucederam, as quais, quando comparadas com as Escrituras delas discrepam, e por essa discrepância revelam que, de modo nenhum, são apostólicas. Como os apóstolos não se contradisseram entre si quanto à doutrina, assim os varões apostólicos não ensinaram nada contrário aos apóstolos. Ao contrário, seria ímpio afirmar que os apóstolos, de viva voz, tivessem ensinado coisas contrárias aos seus escritos. São Paulo afirma claramente que ele ensinava as mesmas coisas em todas as igrejas (I Co 4.17). E mais: “Porque nenhuma outra cousa vos escrevemos, além das que ledes e bem compreendeis” (II Co 1.13). Também, em outra passagem, testifica que ele e seus discípulos - a saber, os varões apostólicos - andavam do mesmo modo e, ligados pelo mesmo Espírito, faziam todas as coisas (II Co 12.18). Os judeus também tiveram, no passado, as tradições dos seus anciãos, mas essas tradições foram severamente repetidas pelo Senhor, que mostrou que a sua observância põe entraves à lei de Deus, e que por meio delas Deus é em vão adorado (Mat. 15.1 ss; Mc 7.1 ss)”

Para Michael Horton:

·“A Reforma era uma coleção de "solas" - esta é a palavra latina para "somente". Eles vibravam ao dizer "Sola Scriptura!", significando, "Somente as Escrituras". A Bíblia era a "única regra para fé e prática" (Westminster) para os reformadores. Você vê que a igreja acreditava que a Bíblia era totalmente inspirada e infalível, mas a igreja era o único intérprete infalível da Bíblia. Os Reformadores acreditavam que a Tradição era importante e que os Cristãos não a deveriam interpretar por eles mesmos, mas que todos os cristãos sejam clérigos ou leigos, deveriam chegar a um comum entendimento e interpretação das Escrituras juntos. A Bíblia não deveria ser exclusivamente deixada aos "espertos", mas isso nunca significou para os Reformadores que cada cristão deveria presumir que ele ou ela pudessem chegar a interpretações da Bíblia sem a orientação e assistência da Igreja.

O principal ponto de "Sola Scriptura" então, era este: Não deveria ser permitido à Igreja fazer regras ou doutrinas fora das Escrituras. Não existem novas revelações, nem papas que ouvem diretamente a voz de Deus, e nada que a Bíblia não apresente deveria ser ordenado aos cristãos.”³

Quando se ignora a fé histórica, a conseqüência é o surgimento de crenças “cabeludas” que procurará ser legitimada (por incrível que pareça) pelas Escrituras. Já dizem por ai que “a Bíblia é a mãe de todas as heresias”, embora haja um exagero na frase, ela é realista e constata exatamente essa BABEL DE INTERPRETAÇÕES que é dada ao livro sagrado.

Segundo escreve o Bispo Robinson Cavalcanti:

“Iniciamos o século 16 com quatro ramos do cristianismo e terminamos a era da Reforma com onze. Diante do caos institucional posterior, emanado dos Estados Unidos nos últimos duzentos anos, com 38.000 “denominações”, devemos reconhecer que o caminho da cura para a Igreja passa pela volta aos ensinos da Reforma (que se pretendeu uma reforma e não uma refundação), bem como pelos ensinos de antes da Reforma, dos apóstolos aos pré-reformadores... Sem passado não há presente e não haverá futuro. No meio de tantas doutrinas e “doutrinas”, nos falta conhecer a doutrina da Igreja.”


Ta falado...



Soli Deo Glória



 Aldair Ramos Rios
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³ HORTON, Michael, Que é um Evangélico?, http://monergismo.net.br

CAVALCANTI, Robinson, Reflexões Ultimato, Amar a Cristo e a Sua Igreja


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Comentários

  1. você quer seguir o cristianismo primitivo mas não segue a visão patrística, ou seja os 5 primeiros séculos da Igreja, documentado que rechaça a possibilidade da sola scriptura ou livre exame, ou qualquer baboseira protestante.
    Ou você defende a verdade ou suas pseudo-doutrinas anti-bíblica e anti-histórica.

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