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A maioria dos homens, cegos pelo justo julgamento de Deus, nunca consideraram seriamente a maldição sob a qual a Lei nos sujeita, ou o porquê ela foi ordenada por Deus. Quanto ao Evangelho, geralmente o consideram como nada mais sendo do que uma segunda lei, mais perfeita do que a primeira. Disto decorre a errônea distinção entre preceito e conselho, resultando, pouco a pouco, a total ruína do favor de Jesus Cristo.
Agora, devemos considerar estes assuntos. A Lei e o Evangelho têm em comum que ambos provêm de um Deus verdadeiro, sempre consistente com Ele mesmo (Hb. 1: 1 -2). Não devemos pensar, por esta razão, que o Evangelho revoga a essência da Lei. Pelo contrário, a Lei estabelece a essência do Evangelho (Rm. 10:2-4); explicaremos isto mais tarde. Ambos nos apresentam o mesmo Deus e a essência. da mesma justiça (Rm. 3:31), que reside no perfeito amor a Deus e ao nosso próximo. Mas existe uma grande diferença nestes pontos que devemos tocar, especialmente no que concerne aos meios de obter esta justificação.
Em primeiro lugar, como aludimos antes, a Lei é natural para o homem. Deus a imprimiu em seu coração desde a criação (Rm. 1:32; 2:14,15). Quando, muito tempo depois Deus fez e exibiu as duas Tábuas da Lei, não foi para fazer uma nova lei, mas para restaurar nosso conhecimento original da lei natural que, por causa da corrupção do pecado, foi pouco a pouco, sendo removido do coração do homem (Rm. 7:8,9). Mas o Evangelho é uma doutrina sobrenatural, a qual nossa natureza nunca poderia ser capaz de imaginar, nem aprovar, sem uma especial graça de Deus (1 Co. 1:23; 2:14). Mas, o Senhor a revelou primeiramente a Adão, logo depois de seu pecado, como Moisés declara em Gn. 3:15; posteriormente aos patriarcas e aos profetas em degraus crescentes como melhor Lhe parecia (Rm. 1:2; Lc. 1:55, 70), até o dia em que Ele manifestou Jesus Cristo em Pessoa. Ele claramente anunciou e realizou tudo o que está contido no Evangelho (Jo. 15: 15; 6:38). Este Evangelho é revelado por Deus ainda hoje e será revelado até o fim do mundo, através da pregação instituída em sua Igreja (Jo. 17:18; Mt. 28:20; 2 Co. 5:20).
Em segundo lugar, a Lei nos revela a majestade e a justiça de Deus (Hb. 12:18-21). 0 Evangelho nos mostra esta mesma justiça, mas lá ela é apaziguada e satisfeita pela misericórdia manifestada em Cristo (Hb. 12:22-24).
Em terceiro lugar, a Lei nos envia a nos mesmos, a fim de realizarmos a justiça que nos ordena, ou seja, a perfeita obediência aos seus mandamentos, o que e necessário a fim de escapar da culpa. Desta forma, ela nos mostra nossa maldição e nos sujeita a ela, como o apóstolo declara (Rm. 3:20; Gl. 3:10-12). Mas o Evangelho nos ensina onde achar aquilo que não temos, e tendo achado, nos ensina como ser capaz de desfrutá-lo. Desta forma Ele nos resgata da maldição da Lei (Rm. 3:21, 22; Gl. 3: 13,14).
Concluindo, a Lei declara que somos abençoados quando a cumprimos sem omitir nada; o Evangelho nos promete salvação quando cremos, ou seja, quando, pela fé, nos agarramos a Jesus Cristo que tem tudo o que carecemos e muito mais do que necessitamos. Estas duas condições - fazer o que a Lei ordena, ou crer que Deus nos oferece em Jesus Cristo - são duas coisas que são, não somente muito difíceis, mas totalmente impossíveis para a nossa natureza corrupta; não podemos nem mesmo compreender, como o apóstolo Paulo diz em 2 Co. 3;5 e Fp. 1:29. Por isso é necessário adicionar uma quarta diferença entre a Lei e o Evangelho.
Assim sendo, a quarta diferença entre a Lei e o Evangelho é que a Lei , por ela mesma, pode somente nos mostrar e nos fazer ver nossa maldade aumentada e agravar nossa condenação; não por qualquer culpa dela (da Lei), pois ela e boa e santa, mas por causa da nossa natureza corrupta, corroída pelo pecado, ela nos reprova e ameaça, como o apóstolo Paulo declara, através de seu próprio exemplo (Rm. 7:7-14). Mas o Evangelho não somente nos mostra o remédio contra a maldição da lei mas é, ao mesmo tempo, acompanhado pelo poder do Espírito Santo que nos regenera e nos transforma (como dissemos acima); pois Ele cria em nós o instrumento e o único meio de aplicação deste remédio (At. 26:17-18).
A fim de falar mais claramente, interpretaremos as palavras "letra" e "espírito" as quais alguns usam de forma errada. Eu digo que o Evangelho não é "letra", o que significa dizer, que não é somente uma doutrina morta que nos apresenta, em sua pobreza e simplicidade, aquilo que necessitamos para crer: que a salvação é prometida gratuitamente em Jesus Cristo para os que crêem; mas é "espírito", ou seja, um meio poderoso cheio de eficácia do Espirito Santo, que Ele usa para criar em nós o poder de crer naquilo que Ele nos ensina, ou seja, receber salvação gratuita em Jesus Cristo. É deste modo que a Lei que nos mata e condena por nós mesmos, nos justifica e salva em Jesus Cristo, recebido pela fé (Rm. 3:31).
Esta é a razão porque eu disse que a Lei e o Evangelho não são contrários no que concerne a essência da justificação com a qual devemos nos vestir a fim de sermos aceitos diante de Deus e participarmos da vida eterna; mas são contrários com referência ao meio de obtermos esta justificação. A Lei procura em nós esta justificação; não há consideração para o que nós podemos fazer, mas para o que devemos fazer (Gl.3:12). 0 homem na verdade, por sua falta somente, se fez incapaz de pagar; todavia, ele não deixa de ser devedor, mesmo sendo incapaz de pagar. E consequentemente, a Lei não erra em exigir de nós aquilo que devemos, apesar de não podermos fazê-lo. Mas o Evangelho, amenizando o justo rigor com a doçura da misericórdia de Deus, nos ensina a pagar por meio dEle, que se fez nosso Fiador, que se colocou em nosso lugar e pagou nossa dívida, assim como a do principal devedor, e até o último centavo (Cl.2:13,14). Tanto que o rigor da Lei que nos faz tremer e nos derruba completamente, agora nos aprova e aceita em Jesus Cristo. [...]
Theodoro Beza
Fonte: Monergismo.
Caro Aldair:
ResponderExcluirPercebo que estamos no mesmo caminho: o da busca por um sentido na práxis da fé cristã.
O apóstolo Paulo, em Atos, usa um termo preciso e apropriado para designar a seita dos cristãos. Ele a chama de CAMINHO.
É o que Jesus afirmou: "CONHECEREIS (futuro) a Verdade..."
A busca pela Verdade é uma tarefa contínua, um CAMINHO.
É neste caminho que, percebo, estamos compartilhando.
Li alguns de seus textos e achei ótimo.
Só me permita uma sugestão: formate de maneira que possa ser lido até o final ser causar enfadonho.
Convido o amigo a visitar o meu blog:
http://cristianismonovo.blogspot.com.br/
Um abraço
José Pereira