Num post anterior eu disse que escreveria mais sobre a declaração: “em termos de conteúdo, o barthianismo tem pouca coisa em comum com a ortodoxia histórica da Igreja”. Quando me refiro à ortodoxia histórica, quero dizer as crenças clássicas do Cristianismo histórico, inicialmente confessadas no Credo Apostólico e posteriormente desenvolvidas na produção literária dos reformadores e nas grandes confissões reformadas. Delas, quero destacar a doutrina das Escrituras. Penso que é aqui que reside a maior diferença entre a neo-ortodoxia e a antiga ortodoxia.
O liberalismo, na época do surgimento da neo-ortodoxia, havia reduzido a Bíblia a um livro de religião comum, cheio de erros e contradições de toda sorte, onde encontramos apenas o registro da fé dos israelitas e da fé da Igreja cristã primitiva. Os neo-ortodoxos se levantaram contra a aridez e o ceticismo do liberalismo porque, ao final, ele não nos deixava mais ouvir a voz de Deus através da Bíblia. Para a neo-ortodoxia em geral, o erro dos liberais não foi empregar a crítica bíblica para mostrar que a Escritura está cheia de erros e contradições, mas de pensar que isso era um empecilho para que Deus nos falasse hoje. O maior de todos os milagres é exatamente que Deus nos fala através das palavras imperfeitas, erradas, imprecisas e equivocadas desse livro. A neo-ortodoxia, portanto, desejava manter a relevância da Bíblia sem descartar as afirmações dos liberais, que o Pentateuco era uma edição mal-feita de fontes escritas no período do exílio, que o relato de Gênesis 1-3 era mítico, que os Evangelhos Sinóticos tinham erros, que não havia nada de histórico no Evangelho de João, que Paulo não escreveu a maioria das cartas com seu nome e assim por diante.
Aqui a neo-ortodoxia se afastou da ortodoxia, que apesar de analisar a Bíblia como literatura, não negava sua autenticidade, integridade, historicidade e a veracidade de seus relatos. Enquanto que para a ortodoxia a Bíblia é infalível, a neo-ortodoxia mantém a posição crítica do liberalismo, que a Bíblia está cheia de erros e contradições. A neo-ortodoxia vai mais além do liberalismo em dizer paradoxalmente que, apesar disso, Deus fala infalivelmente através desse livro às pessoas de hoje.
Na verdade, essa separação antecede a neo-ortodoxia, que a tomou emprestada de um dos apóstolos do liberalismo, J. Solomo Semler, (1725-1791): “A raiz de todos os males (na teologia) é usar os termos ‘Palavra de Deus’ e ‘Escritura’ como se fossem idênticos”. Para Barth, por exemplo, a Bíblia é uma testemunha da Palavra de Deus, Jesus Cristo, e não deve ser confundida com essa Palavra. Todos conhecem o slogan neo-ortodoxo, que a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas que se torna a Palavra de Deus quando este, soberanamente, usa-a para nos falar. Sem esse momento milagroso, é um livro qualquer (embora, para sermos honestos, Barth ao final de sua vida, estava mais disposto a admitir que, mesmo na estante, a Bíblia era a Palavra de Deus). Como testemunha da revelação ou da Palavra, a Bíblia não é infalível e muito menos inerrante. Ela é o registro humano da reação de fé que as pessoas tiveram diante da revelação de Deus, Cristo. Os autores bíblicos não foram inspirados conforme diz a ortodoxia, ou seja, suas palavras não foram ditadas mecanicamente por Deus (alguns neo-ortodoxos gostam de caricaturizar a doutrina reformada da inspiração plenária e transformá-la na teoria do ditado). Para os neo-ortodoxos, a inspiração reside naquele encontro contemporâneo entre o leitor e Cristo, a verdadeira Palavra de Deus, nas páginas da Bíblia. Portanto, a Bíblia não é inspirada, mas é instrumento para que essa inspiração aconteça.
É claro que esse conceito, advindo do liberalismo do qual Barth nunca se livrou totalmente, não pode ser considerado como ortodoxo. Na ortodoxia, a Bíblia é a Palavra de Deus, dada por inspiração divina, que consistiu na atuação soberana do Espírito de Deus em seus autores humanos, usando o seu conhecimento, a formação, o estilo, e de tal maneira orientando-os que o resultado final, em qualquer momento, pode com justiça ser chamado de a Palavra infalível e plenamente confiável de Deus.
A maneira que a neo-ortodoxia seguiu para resgatar a fé cristã dos resultados destrutivos da crítica bíblica do liberalismo não foi enfrentá-los e mostrar as suas incoerências, e nem mesmo que eram viciados pelos pressupostos racionalistas. Os neo-ortodoxos aceitaram pacificamente que a Bíblia não nos dá relatos verdadeiramente históricos, fatos ocorridos na história linear. Contudo, afirmaram que aquilo não tinha qualquer relevância para a fé cristã. A fé não depende da história. O Cristianismo permanece relevante independentemente da historicidade ou não da criação, da queda e da ressurreição. Como ilustração, menciono o comentário de Karl Barth em Romanos 1.4, “e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor”, Barth diz:
Esta designação de Jesus [como Filho de Deus pela ressurreição dos mortos] é o seu verdadeiro significado e como tal não pode ser verificado historicamente. Jesus, como o Cristo, o Messias, é o final dos tempos. Ele só pode ser entendido como paradoxo, como vencedor, como pré-história... Do ponto de vista histórico, Cristo só pode ser entendido como problema, mito; ele traz o universo do Pai, do qual nada conhecemos, nem podemos vir a conhecer, através da história.
Aqui Barth declara que a história não pode transmitir o mundo de Deus. Num futuro post de Solano Portela , ele vai falar mais claramente sobre a distinção feita pelos neo-ortodoxos entre historie (história, fatos brutos) e heilsgeschichte (história santa, ou história salvífica). Adiantando um pouco o conteúdo, essa distinção cria dois mundos distintos e não conectados, o mundo da história bruta, real, factível e o mundo da fé, da história da salvação. Coisas como a criação, Adão, a queda, os milagres, a ressurreição, todas elas pertencem à heilsgeschichte e não à historie, a história real e bruta. Aos cristãos não interessa o que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas sim a declaração dos discípulos de Jesus que ele ressuscitou.
Dessa forma, neo-ortodoxos falam da criação, da queda, da ressurreição, mas o que eles querem dizer com isso é bastante diferente da ortodoxia. Os neo-ortodoxos atacaram duramente a busca liberal pelo Jesus histórico, não porque acreditassem que esse Jesus já estava retratado nas páginas dos Evangelhos, mas porque essa busca era irrelevante para a fé. Para eles, o que nos interessa não é o Jesus da história (qualquer que tenha sido), mas o Cristo da fé, que é o Cristo que encontramos nas páginas do Novo Testamento.
Não acho que perdi meu tempo ao criticar liberais em posts anteriores, mesmo que o liberalismo teológico clássico, como movimento, já passou na Europa e nos Estados Unidos. O velho liberalismo ressuscita na historie, transformado em neo-ortodoxia. Neo-ortodoxos identificam-se com orgulho como seguidores do afável e simpaticíssimo Karl Barth, cuja teologia consideram inteligente, reformada e certamente ortodoxa. Não há o que duvidar que é inteligente. Reformada... pode-se discutir. Mas, certamente, ortodoxa, não.
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