Sou apenas mais um adotado. Mais um daqueles de quem não se esperava nada, e que recebe o maior prêmio da vida: torna-se filho do ricaço da região. De afligido e sem teto passei a ser filho do dono simplesmente de tudo, tornei-me o filho do Todo poderoso. Os que antes gostavam de mim, quando eu ainda estava na miséria, agora me apontam na rua para os amigos como exemplo de um vencedor – mesmo eu nada tendo feito; apenas fui inexplicavelmente escolhido.
A vida num orfanato é uma vida muito triste. A cada visita de um casal, todas as crianças (as que já têm algum entendimento) ficam na expectativa de serem as próximas da fila. Contudo, os adotados são sempre os mais novos (o que faz com que os crescidinhos não sejam adotados facilmente), são fartamente os brancos, de olhos claros (o que faz com que crianças de outra cor e de olhos escuros tenham menos chances de receberem um pai), são sempre os saudáveis (tornando os doentes ou deficientes sem qualquer chance de adoção). Para receber um pai, estando num orfanato, é preciso estar dentro de certas condições mínimas, caso contrário, será muito difícil que alguém o queira.
Deus, contudo, entrou no orfanato e me escolheu. Ele graciosamente quis ser meu Pai, apesar de minha condição totalmente desqualificável. Eu, um fora do padrão dos selecionáveis, fui escolhido pelo Senhor, que rapidamente me abraçou, passando seus braços por sobre os meus ombros e logo me chamou de “meu filho”.
Antes da adoção, o que prevalecia em minha vida era o medo, pois havia um espírito de escravidão que me subjugava à condição de devedor. É assim que eu leio o texto de Paulo aos romanos: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”(Romanos 8.15-16)
Esse espírito de escravidão me intimidava, me humilhava, me emudecia de medo, alterava completamente meu semblante tornando impossível disfarçar o pavor. Sempre que o espírito de escravidão entrava no ambiente eu temia pelo pior.
É nesse contexto que fui adotado. O espírito de adoção passou a fazer parte da minha existência. E alicerçado nesse espírito de adoção é que chamo Deus de “Aba Pai”, uma expressão de origem aramaica que significa “o pai” ou “meu pai”, utilizada por Jesus na hora de sua morte quando suplicava a Deus, chamando-o de Pai. Uma vez feito filho de Deus por adoção, agora trago em meu próprio nome a assinatura Daquele que é poderoso nas alturas, invencível em todo o universo.
Ter um bom pai é algo que não se esquece, mesmo depois de muitos anos. Um dia desses vi escrito no para-choque traseiro de um caminhão a saudosa frase:“Saudades do meu pai”.
Eu também tenho saudades do meu Pai - Aquele que me adotou em Cristo Jesus, ainda que eu não fosse a melhor opção. Havia tantos outros bem mais selecionáveis do que eu...
Mas Ele me fez seu filho por amor.
Só por amor.


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