Estamos nos aproximando das festividades comemorativas aos 500 anos da Reforma Protestante do Século XVI. Aquele episódio histórico foi necessário, inadiável, providencial, rico em conteúdo, marcante na História da Igreja, mas, feito por homens, teve as suas falhas, algumas da época, outras em desdobramentos posteriores. Embora os corpos não-Reformados (Igrejas Bizantinas, Pre-Calcedônicas, Nestorianas, Romanas) tenham conhecido heresia e cismas, devemos ter a sinceridade de reconhecer que a nossa abençoada Reforma – por debildades teóricas e práticas na eclesiologia – chega à Idade Contemporânea carente de Unidade, carente de Verdade, ou carente de ambas. Na Europa a carência maior tem sido de Verdade, pois os cismas não foram tão epidêmicos. Como também não foram na Ásia e Oceania. Na América Latina a carência maior tem sido de Unidade, pois as heresias não foram tão epidêmicas. A América do Norte tem sido fonte e pródiga em ambas as negatividades, em ambos pecados.
Por um lado o Ocidente vive sob o impacto avassalador do Secularismo, do Politicamente Correto e da Agenda GLSTB; por outro lado, as antigas religiões (Bramanismo, Budismo, Islamismo, Sikhismo, Jainismo, etc.) resistem sólidas em suas convicções, identidades e lealdades institucionais, e o Islã, movido pelos petrodólares, com a imigração, e com uma ideologia totalitária, mais do que permanecer, avançar. As Igrejas Romanas e Bizantinas, apesar das perdas e crises internas, sem abandonar as suas massas de fiéis nominais, trabalham para consolidar um amplo núcleo de comprometidos, mantendo sob os seus guarda-chuvas uma diversidade de movimentos e tendências, ordens e congregações. Não resta dúvida que sinalizam uma permanência e uma possibilidade de revitalização.
A crise maior do Ocidente e da própria Cristandade está no Protestantismo, atingindo de morte no espaço euro-ocidental pelo Liberalismo Moderno e pelo Liberalismo Pós-Moderno, que, como heresias que dominam instituições, representam, de fato, uma outra religião, pela negação de tudo o que o Cristianismo creu e ensinou ao longo de dois mil anos, cujas igrejas vazias e vidas vazias são sinais de morte, ao lado da ideologia da morte (aborto, homossexualismo, eutanásia), advogando uma Unidade às custas da Verdade. O escândalo do divisionismo denominacionalista, por sua vez, dilacerando o Corpo de Cristo, evidencia a fragilização em relação ao futuro, advogando a Verdade às custas da Unidade. Em ambas dimensões, malgrado o dinamismo missionário de sua vertente evangélica, o Protestantismo chega ao seu meio milênio marcado por uma crise das mais profundas.
Unidade e verdade são suas faces indissociáveis da mesma moeda, e não se pode justificar a perda de uma pela aparente preservação da outra.
A crise maior do Protestantismo, contudo, não está na proliferação de heresias e na proliferação de denominações e seitas, mas do embotamento das mentes em relação a esses pecados. Mentes rombudas, anestesiadas, cauterizadas, insensíveis a ação do Espírito Santo, que nos convence do pecado. Essa indiferença, que é um mecanismo de defesa, é garantia da preservação do status quo, da manutenção da (des)ordem, da aparente normalidade da desobediência àquele que estabeleceu sua Igreja e não suas igrejas; que nos mandou implantar comunidades de fé e não denominações, e que esperava uma Noiva no final da História e não um inumerável harém...
Não como uma denominação protestante, mas como uma Igreja Histórica que se reformou, e que tem no evangelicalismo bíblico sua vertente hegemônica, o Anglicanismo sempre se viu como uma parcela, e parcela provisória, do Corpo de Cristo, e sempre orou pela unidade, pelo dia quando deveria haver um só rebanho e um só pastor. Pregando em um deserto de surdos, afirmamos que todas as denominações deveriam estar com o rosto no pó, em lágrimas, em saco e cinza, em processo permanente de tomada de consciência para mudar a História, antes de sermos atropelados por ela.
As igrejas-negócios, com seus caudilhos e suas dinastias de poder talvez persistam destrutivamente por muito tempo, a nós, mesmo quando nada aparentemente aconteça, não temos outra opção senão o lamento e a busca da obediência.
Nas culturas semíticas (e em muitas outras) não há dualismo entre corpo e alma, entre comunidade e instituição, com um lado negativo e o outro positivo. Assim a Igreja era a Igreja, como um todo = comunidade (Church Life) e instituição (Church Order), sob a liderança dos apóstolos e dos seus sucessores os Bispos, com as Sés liderando as comunidades de uma região (Diocese), posteriormente com títulos apenas honoríficos para os Bispos das Capitais ou cidades principais (Metropolitas), liderando Províncias anglutinadoras de Dioceses (Arcebispos), ou, como Pais da Igreja (Patriarcas). Esse sistema foi construído muito rapidamente e adotado por toda a Cristandade.
Robinson
Cavalcanti
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