No final do primeiro século de vida da Igreja, ela tinha se espalhado pela maior parte do mundo conhecido de então, construindo um padrão de governo: o diocesano-episcopal e lançado os fundamentos que os Pais Apostólicos e os Pais da Igreja iriam enfatizar: Una, Santa, Católica e Apostólica. Razões geopolíticas e culturais, e diferenças teológicas pontuais – apesar de todo o esforço dos Concílios da Igreja Indivisa – resultaram na divisão dessa Igreja Una em quatro ramos:
- A Igreja do Oriente, Ortodoxa/Bizantina;
- A Igreja Assíria do Leste (Nestorianos);
- As Igrejas Pré-Calcedônicas/Jacobitas (Armênia, Egito, Etiópia, Índia);
- Igreja Romana (Latina + Uniatas = Orientais sob a autoridade papal).
E assim a Cristandade permaneceu por quinze séculos, com apenas quatro ramos. No período da Pré-Reforma, surgem mais dois ramos localizados:
- A Igreja Valdense (Itália) e a
- Igreja Moraviana (República Checa).
O importante e necessário episódio da Reforma Protestante, do século XVI, nos lega novos ramos:
1. Anglicanos;
2. Luteranos;
3. Reformados (Calvinistas, Presbiterianos);
4. Anabatistas.
Na Pós- Reforma (século VII), o anabatismo vai se consolidar com a Igreja Menonita e o não-conformismo inglês vai ver “descolar” do Anglicanismo os Congregacionais e os Batistas. Finalmente, no século XVIII, tivemos o último dos ramos dessa fase “sóbria” da divisão da Igreja: a Igreja Metodista. Ou seja, dezoito séculos, mil e oitocentos anos, e apenas 12 ramos da Igreja de Cristo.
O denominacionalismo fragmentante tem o seu epicentro nos Estados Unidos da América no século XIX, por razões raciais e culturais: “denominações” de brancos e de pretos, e os luteranos suecos tinham suas “denominações” diferentes dos luteranos alemães, e assim com todos os ramos e todos os imigrantes. É nesse século que surgem as seitas para-cristãs, como os Mórmons, os Testemunhas de Jeová e a Ciência Cristã, as denominações para-protestantes, como os Adventistas do Sétimo Dia, o Liberalismo revela o seu impacto, e, na Igreja de Roma, o Concílio Vaticano I (1870) vai testemunhar o cisma da Igreja dos Vétero-Católicos da União de Ultrecht. Ainda havia uma sensação de mal-estar com esse divisionismo, em um momento de particular dinamismo no empreendimento missionário mundial. Aí já estávamos com umas 100 “denominações”. O desejo de unidade, fraternidade e cooperação, leva ao surgimento do Movimento Ecumênico, que deságua do Congresso de Edimburgo (1910), liderado pelos protestantes evangélicos, ante a reação contrária da Igreja de Roma e a desconfiança das Igrejas Orientais. Do Movimento Ecumênico surgem as organizações: Fé e Ordem, Vida e Missão, e o Conselho Missionário Internacional. Decorrência, também, foi a fusão, no Norte e no Sul da Índia, no Paquistão e em Bangladesh (diante de um mundo bramanista, muçulmano e budista) de anglicanos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, batistas, luteranos e irmãos livres, nas Igrejas Unidas.
Já havíamos registrado que a preocupação com a autoridade das Sagradas Escrituras e com a Soteriologia (salvação pela Graça mediante a fé em Cristo), tinha deixado os estudos eclesiológicos debilitados em segundo plano durante a Reforma Protestante. No século XX (quando o Canadá tinha 25 “denominações”, os EUA tinham 250) a América do Norte exporta o seu crescente e ilimitado denominacionalismo, que, nos lugares do mundo onde se estabelecem, também sofrem do mesmo mal fragmentante, em geral por conflitos de poder e personalidades, ou por doutrinas secundárias. A Igreja de Roma sofre os cismas das Igrejas Católicas Nacionais, e as Igrejas Orientais também são afetadas (vide cisma vétero-calendarista). Perde-se a consciência de pecado dessa fragmentação, vista como “da natureza das coisas”, “inevitável” e até “boa”, dentro de uma visão materialista e pragmática sob a ótica do modo de produção capitalista concorrencial. Perdeu-se o pudor, a vergonha, a culpa, rotiniza-se o “empreendedorismo religioso” (sai o Espírito Santo, entra o SEBRAE), e aí chegamos ao início do século XXI com 39.000 “denominações” (é possível que novas estejam sendo criadas enquanto escrevo esse artigo). Foi o “liberou geral”, o vale tudo, a zorra geral.
E tome malabarismo mental para justificar esse pecado (racionalizações)!
Una, Santa, Católica e Apostólica? ‘Tais brincando!’...
Robinson
Cavalcanti
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