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A Igreja Vive em Pecado II

 
No final do primeiro século de vida da Igreja, ela tinha se espalhado pela maior parte do mundo conhecido de então, construindo um padrão de governo: o diocesano-episcopal e lançado os fundamentos que os Pais Apostólicos e os Pais da Igreja iriam enfatizar: Una, Santa, Católica e Apostólica. Razões geopolíticas e culturais, e diferenças teológicas pontuais – apesar de todo o esforço dos Concílios da Igreja Indivisa – resultaram na divisão dessa Igreja Una em quatro ramos:
  1. A Igreja do Oriente, Ortodoxa/Bizantina;
  2. A Igreja Assíria do Leste (Nestorianos);
  3. As Igrejas Pré-Calcedônicas/Jacobitas (Armênia, Egito, Etiópia, Índia);
  4. Igreja Romana (Latina + Uniatas = Orientais sob a autoridade papal).
E assim a Cristandade permaneceu por quinze séculos, com apenas quatro ramos. No período da Pré-Reforma, surgem mais dois ramos localizados:
  1. A Igreja Valdense (Itália) e a
  2. Igreja Moraviana (República Checa).
O importante e necessário episódio da Reforma Protestante, do século XVI, nos lega novos ramos:
1. Anglicanos;
2. Luteranos;
3. Reformados (Calvinistas, Presbiterianos);
4. Anabatistas.
Na Pós- Reforma (século VII), o anabatismo vai se consolidar com a Igreja Menonita e o não-conformismo inglês vai ver “descolar” do Anglicanismo os Congregacionais e os Batistas. Finalmente, no século XVIII, tivemos o último dos ramos dessa fase “sóbria” da divisão da Igreja: a Igreja Metodista. Ou seja, dezoito séculos, mil e oitocentos anos, e apenas 12 ramos da Igreja de Cristo.
O denominacionalismo fragmentante tem o seu epicentro nos Estados Unidos da América no século XIX, por razões raciais e culturais: “denominações” de brancos e de pretos, e os luteranos suecos tinham suas “denominações” diferentes dos luteranos alemães, e assim com todos os ramos e todos os imigrantes. É nesse século que surgem as seitas para-cristãs, como os Mórmons, os Testemunhas de Jeová e a Ciência Cristã, as denominações para-protestantes, como os Adventistas do Sétimo Dia, o Liberalismo revela o seu impacto, e, na Igreja de Roma, o Concílio Vaticano I (1870) vai testemunhar o cisma da Igreja dos Vétero-Católicos da União de Ultrecht. Ainda havia uma sensação de mal-estar com esse divisionismo, em um momento de particular dinamismo no empreendimento missionário mundial. Aí já estávamos com umas 100 “denominações”. O desejo de unidade, fraternidade e cooperação, leva ao surgimento do Movimento Ecumênico, que deságua do Congresso de Edimburgo (1910), liderado pelos protestantes evangélicos, ante a reação contrária da Igreja de Roma e a desconfiança das Igrejas Orientais. Do Movimento Ecumênico surgem as organizações: Fé e Ordem, Vida e Missão, e o Conselho Missionário Internacional. Decorrência, também, foi a fusão, no Norte e no Sul da Índia, no Paquistão e em Bangladesh (diante de um mundo bramanista, muçulmano e budista) de anglicanos, presbiterianos, metodistas, congregacionais, batistas, luteranos e irmãos livres, nas Igrejas Unidas.
Já havíamos registrado que a preocupação com a autoridade das Sagradas Escrituras e com a Soteriologia (salvação pela Graça mediante a fé em Cristo), tinha deixado os estudos eclesiológicos debilitados em segundo plano durante a Reforma Protestante. No século XX (quando o Canadá tinha 25 “denominações”, os EUA tinham 250) a América do Norte exporta o seu crescente e ilimitado denominacionalismo, que, nos lugares do mundo onde se estabelecem, também sofrem do mesmo mal fragmentante, em geral por conflitos de poder e personalidades, ou por doutrinas secundárias. A Igreja de Roma sofre os cismas das Igrejas Católicas Nacionais, e as Igrejas Orientais também são afetadas (vide cisma vétero-calendarista). Perde-se a consciência de pecado dessa fragmentação, vista como “da natureza das coisas”, “inevitável” e até “boa”, dentro de uma visão materialista e pragmática sob a ótica do modo de produção capitalista concorrencial. Perdeu-se o pudor, a vergonha, a culpa, rotiniza-se o “empreendedorismo religioso” (sai o Espírito Santo, entra o SEBRAE), e aí chegamos ao início do século XXI com 39.000 “denominações” (é possível que novas estejam sendo criadas enquanto escrevo esse artigo). Foi o “liberou geral”, o vale tudo, a zorra geral.
E tome malabarismo mental para justificar esse pecado (racionalizações)!
Una, Santa, Católica e Apostólica? ‘Tais brincando!’...
 
Robinson Cavalcanti

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