Por viver em pecado, a Igreja desobedece ao seu Senhor, se torna um obstáculo à evangelização, escandaliza, perde autoridade moral e afeta a saúde espiritual de seus membros. A pecaminosidade (Depravação Total) é uma realidade depois da Queda, e se manifesta em pecados pessoais, coletivos e institucionais: famílias, tribos, nações, Estados, organizações, por ações e omissões, por palavras e por pensamentos. Com a regeneração, se perde o efeito, e se enfraquece o poder, mas não desaparece a presença do pecado. Todos pecam todo o dia, mas o “viver em pecado” implica em continuidade, permanência, não-consciência, não-arrependimento, não-busca de superação. A Igreja vive em pecado ora pela heresia (pecado contra a Verdade), ora pelo Cisma (pecado contra a Unidade). Essa atitude de alienação e/ou auto-indulgência fere o coração de Cristo e entristece o Espírito Santo.
Em entrevista recente a uma revista semanal de circulação nacional, um analista condenou a influência de Jean-Jacques Rousseau sobre o pensamento Ocidental, com seu mito da “bondade natural” dos seres humanos, o que leva a considerar delinquentes e drogados sempre como vítimas, e afirmou ser muito mais aceitável a ideia cristã do pecado, pois é evidente a existência da maldade na pessoa humana.
Como há, em todos os ramos da Igreja, uma “hierarquia de pecados”, que implica no moralismo e no legalismo, a disciplina eclesiástica termina sendo o exercício do controle comportamental dos que pecam por pensamentos e omissões (“pecadores inteligentes”) sobre os que pecam por palavras e ações (“pecadores que dão bandeira”).
Com o Liberalismo Teológico (Moderno e Pós-Moderno) e o Neo-Pentecostalismo, p.ex., a Igreja vive em pecado pela aceitação da heresia como parte de sua rotina religiosa, apesar de, desde os seus primórdios, a Igreja ter lutado contra elas. O Fundamentalismo Teológico, por sua vez, tem implicado em um evangelho parcializado, mutilado, pois se o “Plano de Salvação” é nuclear ao Evangelho, não o resume nem o esgota, em suas dimensões de presença do Reino na História, e em uma promoção de uma Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, não só como um slogan, mas como algo real. A heresia é um cisma material, porque rompe a unidade confessional e a identidade da Igreja.
O considerar a prática do homossexualismo como um não-pecado é apenas a segunda manifestação dessa “despecaminosização” do que sempre foi considerado um pecado, pois o primeiro desse fenômeno foi se varrer do rol dos pecados a terrível realidade do Cisma, ou dilaceramento formal do Corpo de Cristo como instituição, nas palavras de um pensador “o rasgar outra vez a túnica inconsútil”. Por não aguentar a dor de consciência e a sensação de impotência, os cristãos tratam a instituição eclesiástica diferente da instituição família, trabalho ou Estado, usando uma abordagem neo-platônica, metafísica: a “unidade espiritual” ou a “igreja invisível” (formada por fantasmas...) diante da tragédia das 39.000 “denominações” que esquartejam o Corpo. Acuados e chateados, os cristãos falam em “problema” ou em “dificuldade insolúvel”, mas se recusam a usar a palavra pecado para se referir aos Cismas, para não se sentirem culpados, não buscarem arrependimento e perdão, e não serem forçados a nadar contra a maré e se indispor com seus irmãos divisionistas. Há quem ache isso natural, inevitável, e, até quem ouse afirmar a blasfêmia de que “Deus me mandou criar uma denominação”, além daqueles que usam o argumento econômico capitalista do melhor produto na competição do livre mercado.
Robinson Cavalcanti
Comentários
Postar um comentário