por
Elias
Medeiros
Nós, evangélicos protestantes, cremos
que a Bíblia responde às questões básicas levantadas em todas as épocas e em
todos os lugares. Entretanto, a questão que está sempre presente na mente e no
coração de todos os seres humanos é a questão relacionada com o futuro. "O
passado a gente conta, o presente a gente curte, e o futuro a gente tenta
adivinhar". Esta parece ser a filosofia da maioria das pessoas e de várias
religiões.
Historicamente falando, a igreja
protestante tem passado por épocas nas quais pode-se detectar a falta de um
balanço escatológico. Algumas vezes, a igreja se mostrava tão apegada ao
presente, que dava pouca atenção ao futuro. Outras, a igreja se apegava tanto ao
passado, que chegava a esquecer de sua relevância para o presente e de seu
destino futuro.
A história da escatologia cristã em
geral reflete essa batalha entre o passado, o presente e o futuro. Vários
teólogos evangélicos protestantes têm escrito sobre o assunto. A história da
igreja tem revelado que, durante os primeiros cinco séculos, os cristãos não se
preocupavam muito em desenvolver uma doutrina escatológica. É bom ressaltar,
entretanto, que a ausência de um dogma sistematicamente formulado nunca
significou a ausência de crenças e esperanças escatológicas. Pelo contrário,
durante os primeiros cinco séculos os cristãos criam na vida após a morte, na
segunda vinda do Senhor Jesus, na ressurreição dos mortos, no julgamento final,
em tribulações e na criação de um novo céu e de uma nova terra. Mas a
escatologia, como doutrina sistematizada, tal qual nós a temos hoje, não foi
desenvolvida durante aquele período. Basta lermos o credo apostólico para
percebermos essas crenças, porém sem um desenvolvimento cronológico ou
sistemático da doutrina.
Mesmo durante a Idade Média, até o
início da Reforma Protestante, os cristãos daquela época também criam nesses
ensinos, mas havia "pouca reflexão sobre a maneira pela qual" os fatos se
desenvolveriam, especialmente sobre o aspecto cronológico da escatologia
bíblica.
Já os reformadores protestantes sem dúvida refletiram mais sobre a questão escatológica. Em parte, foram motivados pela disputa teológica com a Igreja Católica, que ensinava o purgatório, por exemplo. Os teólogos reformados, portanto, fizeram muita ligação entre a escatologia, a soteriologia (a glorificação dos salvos) e a eclesiologia (a igreja triufante etc).
Já os reformadores protestantes sem dúvida refletiram mais sobre a questão escatológica. Em parte, foram motivados pela disputa teológica com a Igreja Católica, que ensinava o purgatório, por exemplo. Os teólogos reformados, portanto, fizeram muita ligação entre a escatologia, a soteriologia (a glorificação dos salvos) e a eclesiologia (a igreja triufante etc).
Na atualidade, o racionalismo, o
evolucionismo, o existencialismo, juntamente com o liberalismo teológico,
provocaram uma reflexão mais profunda por parte dos protestantes ortodoxos, já
que todos aqueles ismos atacavam todo tipo de ensino sobre a certeza de alguma
realidade futura. Berkhof e outros protestantes reformados reconheciam que o
liberalismo teológico ignorava totalmente os ensinos escatológicos do próprio
Jesus Cristo, colocando toda a ênfase simplesmente nos preceitos éticos do
Senhor. O racionalismo, o evolucionismo e o existencialismo filosófico, por sua
vez, desconsideram qualquer ensino escatológico: na melhor das hipóteses, a
escatologia bíblica não passa de uma utopia mitológica.
Os protestantes evangélicos,
entretanto, baseados no ensino da Palavra de Deus, crêem na vida após a morte,
na segunda vinda do Senhor Jesus, na ressurreição dos mortos, no julgamento
final, na criação de um novo céu e de uma nova terra. Em outras palavras, os
protestantes conservam as mesmas crenças que os demais cristãos que aceitam as
Escrituras Sagradas como única e última regra infalível de fé e prática. Mas o
fato de crerem nessas doutrinas não significa que todos os protestantes as
aceitem do mesmo modo, em relação à forma como elas se cumprirão. Assim, há uma
variada divergência hermenêutica no meio protestante, com pelo menos três
escolas de interpretação: aminelista, posmilenista e premilenista.
Os amilenistas como L.Berkhof,
O.T.Allis, G.C.Berkhouwer e outros crêem que as Escrituras Sagradas não fazem
nenhuma distinção cronológica entre a segunda vinda de Cristo, o arrebatamento
da igreja, e a participação do crente no novo céu e na nova terra. Para os
amilenistas haverá apenas uma ressurreição geral dos crentes e dos incrédulos, a
qual ocorrerá durante a segunda vinda de Cristo. O julgamento final será para
todos os povos. A tribulação é algo que experimentamos na presente era. O
milênio referido nas Escrituras (Apocalipse 20) não significa um milênio
literal, pois o reino de Deus, inaugurado visivelmente com a primeira vinda do
Senhor Jesus, continua espiritualmente presente, embora invisível
(invisibilidade não é sinônimo de inexistência), e será consumado com a segunda
vinda visível do Rei da Glória. Entramos neste reino pela fé (João 3). Para os
amilenistas as Escrituras não fazem distinção entre a igreja no Velho Testamento
(Israel)e a igreja do Novo Testamento ("o novo Israel", composta de circuncisos
e incircuncisos).
Os posmilenistas, como Charles Hodge,
B.B.Warfield, W.G.T. Shedd, e A.H.Strong, crêem que a segunda vinda de Cristo
ocorrerá após o milênio (não literal). A era presente se misturará com o milênio
de acordo com o progresso do evangelho no mundo. Em geral, os posmilenistas
assumem a mesma postura amilenista com relação ao ensino da ressurreição, do
julgamento final, da tribulação e da posição sobre Israel e igreja.
Os premilenistas se dividem em dois
grupos principais: os premilenistas históricos (como G.E.Ladd, A.Reese e
M.J.Erickson) e os premilenistas dispensacionalistas (como L.S.Chafer,
J.D.Pentecost, C.C.Ryrie, J.F.Walvoord e Scofield).
Os premilenistas históricos crêem que
a segunda vinda de Cristo para reinar nesta terra e o arrebatamento da igreja
acontecerão simultaneamente; haverá a ressurreição dos salvos no início do
milênio (a primeira ressurreição) e a ressurreição dos incrédulos no final do
milênio. O milênio, entretanto, na posição premilenista histórica, é tanto
presente como futuro. No presente, Cristo reina nos céus. No futuro, Cristo
reinará na terra, embora os premilenistas históricos em geral não considerem o
período da tribulação e façam uma certa distinção entre Israel e igreja (o
Israel espiritual).
Os premilenistas dispensacionalistas
ensinam que a segunda vinda do Senhor Jesus acontecerá em duas fases: na
primeira, o Senhor Jesus se encontrará com a igreja nos ares, levará os salvos
para participar das bodas do Cordeiro nas regiões celestiais; e, após sete anos
de tribulação na terra sem a presença da igreja, regressará com ela para reinar
neste mundo por mil anos. Eles fazem uma distinção entre a ressurreição para a
igreja, na ocasião do arrebatamento, a ressurreição para aqueles que virão a
crer durante a tribulação de sete anos (ressurreição esta que ocorrerá na
segunda vinda do Senhor, no final da tribulação) e a ressurreição dos incrédulos
no final do milênio.
Os premilenistas dispensacionalistas
fazem, também, uma distinção entre o julgamento dos crentes após o
arrebatamento, o julgamento de judeus e gentios convertidos no final da
tribulação de sete anos e o julgamento dos incrédulos no final do milênio. Sem
dúvida, para os membros desta escola de interpretação, os sete anos de
tribulação será literal, mas a igreja neo-testamentária será arrebatada antes
dessa tribulação. O milênio será inaugurado e estabelecido com a segunda vinda
do Senhor Jesus, após a tribulação e durará, literalmente, 1.000 anos. Sem
dúvida, esta posição distingue completamente Israel e igreja.
De todas essas perspectivas
protestantes, a meu ver, a que mais se coaduna com a exegese bíblica é a posição
amilenista. Pessoalmente creio que esta posição é a mais condizente com o ensino
dos profetas, do Senhor Jesus e dos apóstolos, tanto hermenêutica quanto
exegeticamente falando (Mateus 24-25).
Se o leitor estudar com mais afinco
essas posições escatológicas, poderá perceber suas implicações imediatas no que
tange à evangelização mundial e ao envolvimento da igreja nas questões sociais e
políticas de nossa era. A posição escatológica mais fraca, em termos
hermenêuticos e exegéticos, é a posição premilenista, devido à sua grade
cronológica pré-estabelecida. Os premilenistas, em geral, começam com um quadro
cronológico pré-estabelecido e passam a fazer uma "cirurgia textual" nas
Escrituras, de acordo com o quadro já pré-desenhado por eles.
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O paraibano Elias Medeiros é chefe do Departamento de Missões do Seminário Reformado de Jackson, Mississippi (EUA) e professor do Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG.
O paraibano Elias Medeiros é chefe do Departamento de Missões do Seminário Reformado de Jackson, Mississippi (EUA) e professor do Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG.
Publicado originalmente na Revista
Ultimato.
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