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Afirmando o Conhecimento da Verdade

 

Culminação da obra da Criação, a humanidade é dotada de razão, sentimentos e vontades. Únicos seres racionais, com o cérebro no topo do corpo, a comandá-lo (e não no joelho ou no tornozelo). No Éden havia uma harmonia entre o pensar humano e o pensar de Deus. Com o Pecado Original passamos a ter percepções desfocadas, equivocadas e pensar o mal. Regenerados, podemos ocupar nossas mentes com tudo o que é bom, e, na santificação, vamos nos aproximando do pensar de Deus, pela obra do Espírito Santo: “vós tendes a mente de Cristo”, nos ensina Paulo, que nos diz que conhecemos a vontade de Deus pela renovação do nosso entendimento. O apóstolo Pedro nos exorta a estarmos sempre preparados para dar a razão da fé que há em nós.

A realidade é una, mas pode ser abordada pelo senso comum ou de forma sistemática, dependendo do objeto pela ótica teológica, filosófica ou científica (com suas várias correntes e marcos teóricos), que não se contradizem, mas se complementam. O sábio é aquele que, sem desprezar o senso comum, tem abertura e alguma formação teológica, filosófica e científica, pois o contrário é parcialização, unilateralismo ou mutilação do conhecimento. Crer é também pensar, já se afirmou, com razão.

Seja a família, a comunidade, a escola, a mídia, a Igreja, ou o Estado, se promove a veiculação de informações e leituras, com a ambiguidade da imagem de Deus e do pecado. A maturidade cristã nos faz crescer no discernimento a tudo o que nos vem de informações – nacionais ou estrangeiras – para que, com moderação e bom senso, examinemos de tudo e retenhamos o bem. O cristão deve orar pedindo a Deus essa capacidade de um filtro teológico e moral de todas as coisas, não somente fora, mas dentro da própria Igreja.

Aplicamos esse discernimento em nosso compromisso com a vida e com a integridade da criação, com o ecossistema hoje seriamente ameaçado por pecados políticos e econômicos predatórios e antivida.

O centro do nosso saber deve ser a busca da vontade de Deus, revelada na natureza, nos nossos corações, nas Sagradas Escrituras, na vida e ensinos de Jesus, na conjuntura, na comunidade de fé iluminada pelo Espírito Santo.

A busca da mente de Deus é uma busca pela verdade. Cristo é a verdade e nos prometeu o Espírito da Verdade que nos conduz a toda a verdade.

Nossas limitações não nos permitem conhecer (e obedecer) ao todo da vontade de Deus, mas o Senhor, Deus de Revelação, pela sua Graça, nos permite conhecer o suficiente da verdade, e rejeitar os erros, denominados de heresias. Tem sido assim ao longo dos séculos, destacando-se o papel dos profetas e dos reformadores.

A verdade não pode estar separada das Escrituras, nem a sua compreensão pode ser separada da comunidade dos que creem, ao longo do tempo e do espaço: consenso dos fiéis. Ela não pode ser priorizada por revelações particulares de taumaturgos contemporâneos, por algum dictat do tipo islâmico, nem por alguma expressão de “mediunidade protestante”.

Satanás, o espírito desse mundo, a cultura em seu pecado são veículos permanentes da mentira, a antiverdade, e que pode, tantas vezes, atingir o interior do povo de Deus – por suas bases ou por suas cúpulas – com graves danos à saúde espiritual e à fidelidade ao sagrado depósito a nós confiado.

Os Credos, as Confissões de Fé, as decisões dos Concílios da Igreja Indivisa, os pontos convergentes dos Pais da Igreja e/ou dos Reformadores se constituem em ferramentas importantíssimas para a definição, a compreensão e a vivência da Verdade.

A modernidade privilegiou a razão como meio de se atingir a verdade, menosprezando a intuição, a mística, a estética ou a erótica. A pós-modernidade radicalizou pela desqualificação de todos os meios, e pela afirmação da “verdade” de que nada da verdade podemos afirmar, senão a relatividade e a subjetividade de cada um.

Como evangélicos, temos pago um preço por confrontarmos o espírito do século que nos cerca, e que hoje está em nosso meio, com um “reavivamento de heresias”, sem cairmos na esterilidade do fundamentalismo posterior, mas afirmando uma sadia confessionalidade, onde ortodoxia e ortopraxia são parceiras inseparáveis.

Fora e dentro da Igreja esse é um tempo de negação, de confusão e de antiverdade, que intimida, amedronta.

Que nesse Tempo de Quaresma nos arrependamos de nossa preguiça e indisciplina intelectual, dos pecados de não honrar a Deus com privilégio da mente, do descaso com o saber e com a tarefa apologética, a partir da afirmação do suficiente da verdade revelada que conhecemos e cremos, de toda a nossa mente, de todo o nosso coração e de toda a nossa alma.

“...para dar ao seu povo conhecimento da salvação...” (Livro de Oração Comum Brasileiro-LOCb).

+Dom Robinson Cavalcanti
 
 
 

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