- O Pensamento como Criação de Deus e o “Teocentrismo”
(Artigo Publicado na RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez 2005)
É o homem quem pensa; mas ele só o faz porque Deus pensa e criou o homem “à sua imagem”. Esse é o elemento central de uma visão cristã da reflexão: que tal capacidade faz parte de nossa estrutura criada e, portanto, é algo intrinsecamente bom. Não é ruim pensar, e é antibíblico ensinar as crianças evangélicas a idéia de que quanto menos pensamos, melhor para a nossa fé.
Mas há algo mais aqui. Nós fomos criados “à imagem de Deus”. Isso significa que a glória de Deus se revela naquilo que nós fazemos. Não é que algo em nós seja a imagem de Deus, mas que nós o somos! Portanto o “homem pensante” revela a sabedoria de Deus.
Se acreditamos, no entanto, que o homem existe à imagem de Deus, não há lugar para a crença de que o homem seja essencialmente um ser “racional”. Deus é uma pessoa divina que também pensa, mas ele não é uma “razão cósmica”. Numa perspectiva cristã o homem deve ser visto como um centro pessoal, ou um “coração” que tem uma razão, mas que tem também outras funções igualmente importantes: a corporalidade, as emoções, a fé, a sociabilidade, o senso moral, etc.
Portanto a primeira contribuição que a cosmovisão cristã pode dar para a nossa reflexão é a compreensão do lugar da racionalidade na vida humana: trata-se de um aspecto fundamental da nossa vida, intrinsecamente bom, mas que não pode ser posto à frente de outras qualidades humanas. Essa constatação está diretamente ligada a um debate muito antigo da filosofia e da teologia.
Na entrada do oráculo de Delfos havia uma inscrição: “conhece-te a ti mesmo”. Sócrates, referindo-se a essa expressão, disse certa vez: “a alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte: Conhece-te a ti mesmo”. Um dos temas centrais do pensamento de Sócrates era a descoberta da “essência” do homem, que para ele se encontrava na alma racional.[1][4] Séculos mais tarde Santo Agostinho nos ajudaria a conhecer a resposta cristã a essa pergunta tão importante: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”[2][5] Para ele a essência do homem não é uma alma racional, mas uma orientação da vontade, como um rio que corre para o mar.
Contrariamente aos filósofos gregos, Agostinho insistia que conhecer a verdade não é necessariamente fazer a verdade, pois a natureza essencial do ser humano não é a razão mas a vontade. O ser humano é criado de tal forma que não tem outra escolha que não amar, orientar seu ser para algum objeto, princípio, pessoa, com total devoção. O objeto supremo querido por cada pessoa caracteriza seu ser total, dando-lhe suas pressuposições, motivações, razões, vitalidade e objetivo. Não há ser humano sem tal fé, ‘religião’, ‘Deus’. Não se raciocina para tal objeto, mas se raciocina a partir dele.[3][6]
Por isso para Agostinho o autoconhecimento estava ligado ao conhecimento de Deus,[4][7] e esse conhecimento não poderia ser obtido sem a influência divina na vontade e a prática da verdade.[5][8] Mais de mil anos depois Calvino diria:
“... pelo conhecimento de si mesmo é cada um não apenas aguilhoado a buscar a Deus, mas até como que pela mão conduzido a achá-lo. Por outro lado, é notório que jamais chega ao homem ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus e da visão dele desça a examinar-se a si próprio.”[6][9]
Chegamos assim à concepção que eu chamaria socrática-agostiniana-calvinista de pensamento: o homem só pode realmente chegar a um conhecimento verdadeiro do mundo se obtiver um conhecimento crítico de si mesmo, e esse conhecimento de si é o conhecimento de sua orientação religiosa fundamental em direção a Deus. Descobrindo em seu próprio coração o ponto de partida religioso de toda a sua existência o homem é confrontado com a necessidade de adorar, unir-se e realizar-se a partir da realidade última, seja ela o que for. É assim, no coração, que o homem se perde em algum ídolo ou se encontra em Deus.
Os pensadores ocidentais tem apresentado críticas ao pensamento teórico há séculos. Exemplos recentes são a filosofia transcendental de Kant, o marxismo, a psicanálise e o pensamento hermenêutico. Mas parece que em nenhum desses modelos de criticismo foi jamais lançada a questão da autonomia da razão, aceitando-se tacitamente a solução socrática. Na verdade, essa autonomia foi sempre pressuposta como a única condição incorrigível e capaz de conferir ao pensamento o status de crítica científica. No princípio do século XX os pensadores reformados começaram a chamar o pensamento ocidental para prestar contas sobre o dogma da autonomia da razão, e a responder à questão específica: como o pensamento moderno constrói seu ponto de referência a partir do qual dá sentido à realidade? Herman Dooyeweerd chamava isso de “ponto arquimediano”. Arquimedes se tornou famoso por dizer que se lhe dessem um ponto fixo, poderia mover o mundo usando uma alavanca. Dizemos assim que todo pensamento tem um ponto arquimediano, o ponto fixo a partir do qual o pensador tem a sua “visão de conjunto”, para relacionar as coisas entre si.
A questão aqui é se a visão cristã de mundo de fato controla o seu pensamento desde o princípio ou não. Por exemplo, se você crê em Jesus, mas crê também que todas as realidades do mundo podem ser explicadas a partir de um conjunto de leis físicas simples nós temos um problema. Tendo a perspectiva cristã como ponto de partida, você será levado a tratar a realidade como algo complexo e irredutível. A crença de que poucas leis ou uma única lei pode dar conta de tudo é parte de outra cosmovisão, o naturalismo filosófico, que exclui a visão cristã.
Muitos exemplos desse tipo de incoerência poderiam ser indicados. Na teologia por exemplo, encontramos aqueles que crêem em Jesus mas procuram interpretar a Bíblia excluindo em princípio qualquer posição doutrinária – como a inspiração bíblica – para salvaguardar a “neutralidade” de seu pensamento. Nesse caso a única coisa que é protegida é o dogma da autonomia do pensamento teórico.
A influência das pressuposições em nosso pensamento pode ser ilustrada pelas palavras de Einstein: “Sem a crença de que é possível entender a realidade com as nossas construções teóricas, sem a crença na harmonia interior do mundo, não pode haver ciência. Esta crença tem sido e sempre será o motivo básico para toda criação científica.”[7][10] Ao contrário do que muitos pensam, essas crenças não são algo universal nem óbvio, e essa é a razão porque a ciência empírica se desenvolveu justamente na cultura ocidental cristã.
Todo pensamento tem pressuposições, e essas pressuposições tem outras pressuposições, e assim por diante, mas não ad infinitum. Se seguirmos esse caminho até o princípio chegaremos a um conjunto de crenças fundamentais que não se fundamentam em nenhuma crença, mas que expressam a orientação fundamental do indivíduo, que poderíamos chamar de existencial, espiritual ou religiosa. É por isso que o dogma da razão autônoma é inconsistente – a própria divinização da racionalidade que ele implica não tem justificação racional. Simplesmente não é possível pensar a partir de um ponto neutro e então concluir com a fé, porque toda razão nasce a partir da fé.
Um caminho para identificar o ponto arquimedeano em qualquer teoria ou visão da realidade é fazer duas perguntas simples. A primeira é: qual é a pressuposição “imexível” desse pensamento? Ou seja: qual é o “ponto fixo” que faz tudo girar em torno dele? No seu caso, você deve perguntar: eu tenho um ponto fixo em meu pensamento que seja distinto de Jesus Cristo? A segunda pergunta é: como esse ponto fixo confere a mim identidade e autocompreensão? Ou: como esse ponto influencia a atitude que tenho para comigo mesmo e para com o mundo?
Chegamos então, de novo à pergunta inicial: temos autoconhecimento? Não se trata aqui de ter um autoconhecimento exaustivo, mas um autoconhecimento verdadeiro, ainda que elementar. A posição cristã é de que nós temos o autoconhecimento porque sabemos que nada somos sem Deus, e temos encontrado repouso nele; e assim, conhecendo-o no evangelho somos homens. Isso pode ser descrito como Teocentrismo, ou Teonomismo. Mas aquele que não conhece sua orientação religiosa fundamental jamais atingirá o autoconhecimento, pois não pode saber porquê é quem é, nem porque pensa como pensa, nem que é e pensa a partir de um ídolo. Para este, não haverá repouso.
[1][4] Curiosamente, parece que o Deus supremo era, para Sócrates, a mente ou a inteligência infinita.
[3][6] GOUVEIA, Ricardo Quadros. Paixão pelo Paradoxo: Uma Introdução a Kierkegaard. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 169,170.
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