A Idéia de uma Reflexão Cristã na Tradição Reformacional
Guilherme V. R. Carvalho[1][1]
(Artigo Publicado na RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez 2005)
Resumo
O pensamento reformacional é uma importante tradição intelectual cristã, nascida no calvinismo holandês e cujas raízes remontam a Agostinho. A proposta reformacional de pensamento teórico se caracteriza por seu compromisso com a cosmovisão cristã, expressa na tríade Criação-Queda-Redenção. No artigo o autor procura mostrar como cada um dos elementos da tríade tem influência determinante na constituição de uma atitude reflexiva tipicamente cristã, em oposição ao pensamento humanista.
Introdução
Quando comecei, há pouco tempo, a falar a respeito da necessidade de reformarmos a mente evangélica, a primeira reação das pessoas foi de estranhamento. Acabei descobrindo que boa parte dos crentes entende que o cristianismo é uma forma diferente de crença, mas não necessariamente de pensamento. Segundo eles, “razão é razão”: só haveria uma forma de raciocinar, válida tanto para crentes como para incrédulos.
Há, no entanto, muitos cristãos que tem uma posição diferente a respeito disso. Eles chegaram à percepção de que o humanismo secular não apenas transmite uma interpretação anti-cristã do mundo, mas também incute padrões de pensamento anti-cristãos nos indivíduos. Em resposta, propuseram uma reforma integral da ação da Igreja no mundo, que incluiria a reforma do próprio pensamento teórico. Essa proposta tem suas origens em Agostinho e Calvino ; foi desenvolvida inicialmente na Holanda, com Abraham Kuyper e seus seguidores, principalmente Herman Dooyeweerd, D. T. H. Vollenhoven, e ganhou expressão mais recentemente no pensamento de Cornelius Van Til, Francis Schaeffer, Charles Colson, Nancy Pearcey, Alvin Plantinga, e muitos outros pensadores evangélicos.[2][2]
A marca dessa tradição é o compromisso com a cosmovisão cristã integral como ponto de partida para o pensamento cristão, e a busca por uma reforma do pensamento científico e filosófico. Por essa razão sua proposta de pensamento tem sido denominada “filosofia reformacional”, ou “pensamento reformacional”.
Ora, se o pensamento reformacional se caracteriza exatamente pelo compromisso com a cosmovisão cristã, segue-se que a primeira palavra sobre o pensar cristão deve ser uma interpretação desse ato a partir da cosmovisão cristã. Durante a história da igreja vários pensadores cristãos apontaram os elementos básicos da Cosmovisão Cristã como sendo a tríade “Criação-Queda-Redenção”.
Assim uma visão cristã da reflexão precisa considerar o pensamento humano sob estes três pontos de referência: como criatura de Deus, como criatura caída, e como parte da obra redentiva de Deus em Cristo. Isso é o que pretendemos fazer em nosso artigo.[3][3]
CONTINUA...
[1][1] O autor é mestre em Teologia com ênfase em Novo Testamento (Faculdade Teológica Batista de São Paulo) e bolsista do CNPq no programa de mestrado em Ciências da Religião da UMESP. É também pastor batista (CBN) e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte.
[2][2] O pensamento reformacional surgiu como movimento autoconsciente ao final do século XIX entre os neo-calvinistas holandeses, sob a liderança Abraham Kuyper, e depois de Herman Dooyeweerd. Essa tradição está estruturalmente conectada a uma compreensão calvinista das Escrituras, da relação entre Deus e sua criação, da Queda, etc.
[3][3] Em uma próxima oportunidade discutiremos os principais obstáculos ao pensamento reformacional, e sua relevância para a igreja evangélica atual.
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