Traduzindo do francês o capítulo em que Jean Crespin, na sua obra- Histoire des Mártires, tomo II, pags. 448-465 e 506-519, se ocupa da perseguição dos Calvinistas no Brasil, fazemo-lo por desejarmos concorrer, de algum modo, á comemoração que, aos 31 de outubro do corrente ano(1917), o Catolicismo Evangélico fará do 4.° centenário da Reforma, bem assim por ser geralmente desconhecida a historia dos primeiros fieis que, a 9 de fevereiro de 1558, sofreram o batismo de sangue em Coligny, hoje fortaleza de Villegaignon, na baía de Guanabara - Rio de Janeiro.
Das anotações feitas a esse capitulo por Matthieu Lelièvre, na edição de 1887, vertemos as que nos pareceram de real valor e adicionamos outras sobre pontos que cumpria elucidar.
O dr. Erasmo Braga, membro da Academia de Letras de S. Paulo e deão do Seminário Teológico Presbiteriano em Campinas, havendo, em 1907, traduzido a Confissão de Fé que determinou a execução dos mártires Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon, para que constasse do Relatório da Igreja Presbiteriana, desta Capital, apresentado pelo dr. Alvaro Reis, seu pastor collado, e relativo ao mesmo ano, precedeu-a de alguns conceitos que, com a devida vênia, passamos a transcrever, por constituírem excelente Prefacio ao nosso trabalho:
«Vai-se alargando o martirológio da Igreja de Cristo no Brasil: -
Ainda rubra corre a torrente, quando o céu chora sobre o sangue do ultimo mártir, e a memória dos primeiros não tem um monumento, no coração sequer de seus confrades.
É tempo de se levantarem as campas. Tirem-se as relíquias, e alcemo-las! São os nossos troféus.
Não há no mundo quem tenha mais vivo monumento dos seus mártires que nós. Nem o Coliseu com as suas arcarias soturnas: o rugido das feras há muito que emudeceu.
Ali, porém, naquela belíssima baía de Guanabara, está a ilha, onde primeiro, em terras da América, os fiéis comemoraram a morte do Salvador.
Ao cimo da colina, uma fortaleza, como então.
Seu nome perpetua a memória execranda do carrasco.
Lá, a rebentar dos arrecifes, as mesmas ondas que sorveram os corpos dos mártires, vêm cobrir de branca espuma a rocha que serviu de cadafalso.
E o mar ainda ruge como no dia do martírio.
Templo, cadafalso e jazigo.
Jean de Lery, o historiador da expedição de Villegaignon, por que no dia das retribuições não se lhe leve em conta o olvido, empreendeu narrar os martírios de seus irmãos na terra do Brasil.
Quebraram-se uma por uma as promessas do ambicioso almirante; Richier é injuriado em plena congregação; os sermões são criticados com veemência pelo intimo do chefe da expedição ; por fim, violenta, estoura a apostasia.
Disputava-se sobre a doutrina dos Sacramentos, e Chartier, o outro pastor que Calvino enviara, voltou á Europa, levando apelo ás igrejas-mães.
Sozinho, a lutar contra a violência, Richier e os fiéis foram obrigados a deixar o forte e ir para o continente.
Depois de muito sofrer, puderam, um dia, ver-se à bordo de um navio que os devia repatriar. No alto mar, porém, o velho barco fazia água, e tão desgraçadamente , que o depósito de víveres inundara. Era necessário diminuir os de bordo; e tocou a cinco deles voltarem numa . chalupa para a terra, onde tanto sofreram.
Villegaignon os recebeu com toda a bondade. Os remorsos, porém, que lhe torturavam a alma, levantavam a cada canto um fantasma, e como Caim, o apostata e assassino, temia que um braço vingador viesse, de um golpe, cercear-lhe a ambição. E os pobres homens, tornaram-se suspeitos de traição e espionagem.
Resolvido a elimina-los, buscava ainda o vil perseguidor um véu para encobrir o crime.
Sabia bem o mesquinho que a mesma fé ardente no coração dos confessores reduzidos a cinzas lá na pátria, mais ardente que as brasas das fogueiras, também inflamava o coração das suas vitimas: lembrou-se que era ali o representante de Henrique II.
Era direito dos governadores, em nome do rei, exigir dos súditos uma confissão de sua fé. O almirante ordenou, portanto, que em doze horas respondessem aos artigos de fé que lhes enviara.
O mais velho, distinto entre eles, porque velava pela piedade de seus irmãos e porque em letras possuía conhecimentos da língua latina, foi eleito para redigir a resposta. Sem livros, só possuíam a Bíblia, simples crentes que talvez não tivessem aos pés de Calvino um , curso de divindades, aflitos, cansados, em um dia, foram obrigados a responder a difíceis questões.
Jean du Bourdel escreveu; os outros assinaram a sua Confissão de Fé.
Recebido o documento, o tirano o fez vir à sua presença.
Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e André la Fon vieram; Pierre Bourdon, aflito por moléstia, ficara no continente.
Estavam prontos, disseram, a sustentar a Confissão. Enraivecido, ordenou Villegaignon que os metessem no cárcere a ferros.
Durante a noite, todas as horas ia revistar as algemas, a porta do cárcere, rondar as sentinelas.
Os servos de Deus, entretanto, oravam, cantavam salmos e se consolavam mutuamente.
Cantando salmos, subiu á rocha; orou, e, atado de pés e mãos, o algoz o arrojou ás ondas.
Seguiu-o Matthieu Verneuil.
As suas súplicas que o poupasse, tivesse-o como escravo, respondia o verdugo, menos valor tinha que o lixo do caminho: Tendo orado, exclamando: - «Senhor Jesus, tem piedade de mim» - desapareceu no mar.
Pierre Bourdon, fraco, debilitado pela moléstia foi obrigado a levantar-se, e levado para a ilha.
Lá percebeu o que o esperava, Ao pressentir o lugar onde sofreram seus irmãos não se entristeceu, pois tinham ali obtido a vitória. Cruzou os braços, elevou os olhos ao céu ; orou.
Antes de morrer, quis saber a causa de sua morte. Respondeu-se-lhe que era a sua assinatura de uma Confissão herética e escandalosa.
O rugido do mar não permitiu mais ouvir a sua voz clamar pelo socorro e favor de Deus, e o seu corpo desapareceu no abismo das águas.
E foi assim naqueles tempos que os nossos irmãos pagaram com a vida a audácia de confessar a sua fé ; e, hoje, muita gente balbucia, hesita, ante o sorriso mofador, de qualquer insolente.» -
Das anotações feitas a esse capitulo por Matthieu Lelièvre, na edição de 1887, vertemos as que nos pareceram de real valor e adicionamos outras sobre pontos que cumpria elucidar.
O dr. Erasmo Braga, membro da Academia de Letras de S. Paulo e deão do Seminário Teológico Presbiteriano em Campinas, havendo, em 1907, traduzido a Confissão de Fé que determinou a execução dos mártires Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon, para que constasse do Relatório da Igreja Presbiteriana, desta Capital, apresentado pelo dr. Alvaro Reis, seu pastor collado, e relativo ao mesmo ano, precedeu-a de alguns conceitos que, com a devida vênia, passamos a transcrever, por constituírem excelente Prefacio ao nosso trabalho:
«Vai-se alargando o martirológio da Igreja de Cristo no Brasil: -
Ainda rubra corre a torrente, quando o céu chora sobre o sangue do ultimo mártir, e a memória dos primeiros não tem um monumento, no coração sequer de seus confrades.
É tempo de se levantarem as campas. Tirem-se as relíquias, e alcemo-las! São os nossos troféus.
Não há no mundo quem tenha mais vivo monumento dos seus mártires que nós. Nem o Coliseu com as suas arcarias soturnas: o rugido das feras há muito que emudeceu.
Ali, porém, naquela belíssima baía de Guanabara, está a ilha, onde primeiro, em terras da América, os fiéis comemoraram a morte do Salvador.
Ao cimo da colina, uma fortaleza, como então.
Seu nome perpetua a memória execranda do carrasco.
Lá, a rebentar dos arrecifes, as mesmas ondas que sorveram os corpos dos mártires, vêm cobrir de branca espuma a rocha que serviu de cadafalso.
E o mar ainda ruge como no dia do martírio. Templo, cadafalso e jazigo.
Jean de Lery, o historiador da expedição de Villegaignon, por que no dia das retribuições não se lhe leve em conta o olvido, empreendeu narrar os martírios de seus irmãos na terra do Brasil.
Quebraram-se uma por uma as promessas do ambicioso almirante; Richier é injuriado em plena congregação; os sermões são criticados com veemência pelo intimo do chefe da expedição ; por fim, violenta, estoura a apostasia.
Disputava-se sobre a doutrina dos Sacramentos, e Chartier, o outro pastor que Calvino enviara, voltou á Europa, levando apelo ás igrejas-mães.
Sozinho, a lutar contra a violência, Richier e os fiéis foram obrigados a deixar o forte e ir para o continente.
Depois de muito sofrer, puderam, um dia, ver-se à bordo de um navio que os devia repatriar. No alto mar, porém, o velho barco fazia água, e tão desgraçadamente , que o depósito de víveres inundara. Era necessário diminuir os de bordo; e tocou a cinco deles voltarem numa . chalupa para a terra, onde tanto sofreram.
Villegaignon os recebeu com toda a bondade. Os remorsos, porém, que lhe torturavam a alma, levantavam a cada canto um fantasma, e como Caim, o apostata e assassino, temia que um braço vingador viesse, de um golpe, cercear-lhe a ambição. E os pobres homens, tornaram-se suspeitos de traição e espionagem.
Resolvido a elimina-los, buscava ainda o vil perseguidor um véu para encobrir o crime.
Sabia bem o mesquinho que a mesma fé ardente no coração dos confessores reduzidos a cinzas lá na pátria, mais ardente que as brasas das fogueiras, também inflamava o coração das suas vitimas: lembrou-se que era ali o representante de Henrique II.
Era direito dos governadores, em nome do rei, exigir dos súditos uma confissão de sua fé. O almirante ordenou, portanto, que em doze horas respondessem aos artigos de fé que lhes enviara.
O mais velho, distinto entre eles, porque velava pela piedade de seus irmãos e porque em letras possuía conhecimentos da língua latina, foi eleito para redigir a resposta. Sem livros, só possuíam a Bíblia, simples crentes que talvez não tivessem aos pés de Calvino um , curso de divindades, aflitos, cansados, em um dia, foram obrigados a responder a difíceis questões.
Jean du Bourdel escreveu; os outros assinaram a sua Confissão de Fé.
Recebido o documento, o tirano o fez vir à sua presença.
Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e André la Fon vieram; Pierre Bourdon, aflito por moléstia, ficara no continente.
Estavam prontos, disseram, a sustentar a Confissão. Enraivecido, ordenou Villegaignon que os metessem no cárcere a ferros.
Durante a noite, todas as horas ia revistar as algemas, a porta do cárcere, rondar as sentinelas.
Os servos de Deus, entretanto, oravam, cantavam salmos e se consolavam mutuamente.
Na manhã de sexta-feira 9 de fevereiro de 1558, desceu Villegaignon, bem armado, com um pagem, a uma sala. Mandou apresentar du Bourdel, e mandou-lhe explicar o 5.° artigo da sua confissão. Ao responder du Bourdel, uma bofetada, do apostata fez-lhe jorrar sangue da face, e Villegaignon mofara das suas lágrimas de dor.
Conduzido ao suplicio, ao passar pela prisão, bradava aos seus companheiros que tivessem bom animo, pois breve seriam livres desta triste vida.Cantando salmos, subiu á rocha; orou, e, atado de pés e mãos, o algoz o arrojou ás ondas.
Seguiu-o Matthieu Verneuil.
As suas súplicas que o poupasse, tivesse-o como escravo, respondia o verdugo, menos valor tinha que o lixo do caminho: Tendo orado, exclamando: - «Senhor Jesus, tem piedade de mim» - desapareceu no mar.
Pierre Bourdon, fraco, debilitado pela moléstia foi obrigado a levantar-se, e levado para a ilha.
Lá percebeu o que o esperava, Ao pressentir o lugar onde sofreram seus irmãos não se entristeceu, pois tinham ali obtido a vitória. Cruzou os braços, elevou os olhos ao céu ; orou.
Antes de morrer, quis saber a causa de sua morte. Respondeu-se-lhe que era a sua assinatura de uma Confissão herética e escandalosa.
O rugido do mar não permitiu mais ouvir a sua voz clamar pelo socorro e favor de Deus, e o seu corpo desapareceu no abismo das águas.
E foi assim naqueles tempos que os nossos irmãos pagaram com a vida a audácia de confessar a sua fé ; e, hoje, muita gente balbucia, hesita, ante o sorriso mofador, de qualquer insolente.» -
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