A Queda comprometeu o pensamento humano, razão porque precisamos praticar a antítese. Mas nem mesmo poderíamos pensar em antítese se Deus não tivesse iniciado sua obra redentiva. A graça de Deus opera no mundo preservando e redimindo a sua criação, e isso inclui a mente. E nós cristãos, como primícias da redenção, temos o dever de “desenvolver a nossa salvação” manifestando em nossa vida e obra o impacto redentivo da obra de Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que os nossos padrões de pensamento devem ser transformados: isso é exatamente o que Paulo ensina em Romanos 12: a renovação da mente. Ou, para usar um termo historicamente importante: a “Reforma” do pensamento.
O pensamento antitético não é meramente uma atividade destrutiva. É antes a preparação do terreno para uma atividade positiva de construção. O pensamento reformado sempre enfatizou o lugar da criação na mente cristã, e a tarefa que Deus deu ao homem no princípio de tudo, o mandato cultural.[18] O homem foi posto no mundo para manifestar a imagem de Deus por meio da atividade cultural, desvelando os potenciais presentes na criação no serviço ao próximo para a glória de Deus. A produção cultural é fruto do mandamento de Deus.
A queda tornou essa produção cultural idólatra, destrutiva para a criação e para o próprio homem, mas não a tornou impossível. Por causa da graça comum, Deus impede que o pecado tenha seu efeito total sobre o homem, conferindo-lhe a possibilidade de viver em sociedade e cumprir o mandato cultural por meio da arte, da filosofia, da ciência, da política, e de toda a sua produção cultural. Mesmo assim, toda essa produção é orientada contra Deus.
O cristão, no entanto, está numa posição muito especial. Como qualquer homem, ele pode e deve cumprir o mandato cultural; mas o pecado não tem sobre ele a mesma influência que tem sobre o homem natural. Ele recebeu a revelação de Deus em Cristo pelo Espírito, e participou da palingênese, [19] a restauração de todas as coisas por meio de Cristo, recebendo assim novos olhos, para ver o mundo na perspectiva divina. Assim ele não atua sobre o mundo apenas com o auxílio da graça comum, mas também da graça especial, manifestando em sua própria produção cultural os efeitos da palingênese, mesmo que de forma imperfeita.[20]
Isso significa, em primeiro lugar, que o cristão tem dever de produzir cultura. O pensar cristão deve ser criativo, propondo soluções originais para os problemas teóricos e construindo uma cultura cristã. Por outro lado o cristão não deve “sair do mundo”, pois Jesus nos enviou ao mundo, para viver no mundo.[21]
Assim, o cristão deve não apenas produzir, mas também reformar. A finalidade do pensamento antitético é tornar possível a reforma, que é a expressão provisória da graça no mundo, até à consumação. Por isso, o pensar cristão é criativo e reformacional. Criticamos sim, até às raízes, a mente do mundo, e denunciamos a sua apostasia, mas reaproveitamos todos os vislumbres de verdade que ela produziu na construção do modo cristão de pensar e viver. Buscamos manter um processo permanente de reforma de nosso pensar e de nossa vida cultural, de forma a mantê-la coerente com o evangelho.
Ao pensar reformacionalmente reconhecemos que toda produção cultural humana se fundamenta na graça comum e nos apropriamos dessa produção cultural buscando sua conversão estrutural de forma que ela reflita a nossa fé em Deus. Pensar reformacionalmente é assumir uma atitude positiva em relação à cultura, agindo redentivamente no meio dela ao cumprir o mandato cultural com a força renovada do evangelho. Pensando reformacionalmente, poderemos construir uma mente cristã, sólida, rica, profunda, contextualizada e abrangente, que dará respaldo teórico ao grande projeto cultural reformado: a revelação histórica da Civitas Dei.
Fonte:
Existe uma “forma Cristã” de Pensar?
A Idéia de uma Reflexão Cristã na Tradição Reformacional
Guilherme V. R. Carvalho[1]
(Artigo Publicado na RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez 2005)
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